cubismo

não sei dizer não você me diz
escuto isso como um sim
uma provável ilusão
tá tudo bem
deve ser bom
quero acreditar porque quero acreditar e ponto
eu respeito
tuas escolhas se parecem com as minhas
eu aceito
eu repito
você ouve com a boca já entre as minhas coxas e
te suplico
trinta vezes
três
para que respire
para que respire
para que respire
entendo o coração está parando 
de bater a onda
mas a onda não para
é outra coisa nova que virá
entendo teu coração está parado
já quebrou 
a cara
talvez já até tenhamos desistido
vamos deixar isso para o amanhã
do hoje o que fica é o gosto
são os gestos
minha boca em seu pescoço e já não sei o que
fazer
no ar rarefeito você quer 
sente que é o que precisa
pede que eu te obrigue a ir
e mesmo achando que você queira muito
muito 
muito mesmo
ficar
desço do vagão
evito dizer pra te deixar
a vontade (sem crase)
caso decida partir
mas a verdade é que eu também
não

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signo de ar

o ônibus tremia eu também por dentro
não consegui focar
fracionamos
na ausência de luz no excesso de sons eu
ouvia
mas não comunicamos
a boca muda a coisa toda de não poder
tocar
mas em segredo
trocamos
o que dizer o que você queria ouvir
eu ainda não sabia
que olhando bem de perto
travestido em palavras
assuntos programados, gestos naturais
esse silêncio imenso é uma
sabedoria
me faz guardar por dentro o que você vier buscar
e mais
entrego sem oferecer
peço sem me arriscar
passo a passo vou lembrando do que não fazer
pensando num modo melhor de cometer o erro
(se é certo, que seja sincero)
aceito que me emocionam
teus detalhes
o tamanho dos cílios
o som de corte da voz
um doce de leite em panela de pressão
cabe inteiro na boca
e quando aquela – você sabe aquela – canção
volta e meia ainda toca
é replay
penso
não sei como cheguei àquele dia
mas só parece que eu voltei

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prodigal sun

queria colar um milhão de trechos de músicas, recortes, pra dizer nas entrelinhas em uma voz não totalmente minha, tudo que você, que ainda não é totalmente minha, precisa saber sobre mim. a música que ouvi na estrada pensando em como é feio quando o homem abre um sulco no morro verde, na mata, e a terra vermelha sangra os tons frios da paisagem. nessa hora a música que tocava me deu vontade de escrever isso que estou escrevendo agora – ao mesmo tempo não porque dizê-lo seria me repetir. tudo que eu menos gosto é ser de novo hoje algo que fui ontem. já faz alguns anos, escrevi sobre a despedida de um amor baseada numa música do tears for fears. o texto está por aí, em algum lugar perdido no passado, mas a ideia segue atualíssima. falar com a voz de outro alguém me isenta de crer verdadeiramente que o discurso é muito mais meu do que imagino e do que desejo que seja. as sensações que me despertam essa vontade de copiar e colar cada pedacinho na parede da tua casa, no vidro da frente do teu carro, bem na tua cara – são sensações antiquíssimas. mostram que a pessoa que rouba e finge que não roubou mora aqui dentro já faz anos e anos e ainda não se apresentou completamente a ninguém, para nada. é egoísta, vaidosa, desleal, traiçoeira, não tem remorso e morre de uma fome que boca nenhuma foi capaz de aplacar nem será. cada recorte de estrofe é uma lâmina dupla: uso para te ferir e deixá-la apaixonada pelo gosto que tem a mistura do nosso sangue, uso para me ferir e nunca esquecer que é essa é a fragmentação que vem me acontecendo. estou me derramando pela vida pouco a pouco em cada um de vocês até o dia em que estarei totalmente soca e partirei sem sem saudade e sem nunca ter me saciado. serei apenas desligada como a música que não está tocando enquanto escrevo. não vou colar mais dicas pra você, entre no labirinto por sua conta e risco. seguirei cantando.

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av

se me encontrar andando sete da noite de uma quarta-feira ao lado de um muro extenso à beira da avenida brasil você saberá e até me reconhecerá e se perguntará por que estou aqui se esse é o meu lugar eu simplesmente seguirei sem me justificar porque a cidade também me pertence e se a sua dúvida pode até me confundir pode até me enredar saiba no entanto que sua lâmina nunca cortará a sua sombra jamais alcançará meu coração é feito a única lâmpada do único poste aceso nessa escuridão de subúrbio do Rio de Janeiro e eu sei disso aqui mesmo sem sair do escritório

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saga

sonhei que você me trazia
uma bolsa cheia de coisas bonitas que vinham da ásia, roupas
especiarias
antes de partir observei o esforço que fazia para desprender-se do que é material, esquecer-se do que, naquelas circunstâncias, tinha visto e ainda conseguia ver
me entregava o que era seu porque não era mais você
então antes que mudasse de ideia de repente
caminhei na direção oposta, você para a praça XV, eu para a praça tiradentes
nos despedimos num frame sem som e escuro
até que acordei sozinha sem os teus presentes e nunca mais sonhei em possuir nada que não seja só isso que aqui existe entre o passado e o futuro

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down under

passarei

uma volta inteira do planeta ao redor do sol

sem

te ver, te falar

pra ver

se ausência de nós nos desata da garganta

os nós

e finalmente a gente se acerta

ou ao menos

se entende

antes de se separar

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salto

por conta desse amor 

eu desabitei 

a grama quente onde me deitava a

relva

e me lancei sem medo algum

no susto

na selva

por conta desse amor

agora que chegou a minha vez

o que desliza dos meus olhos

pela tez

são certezas que me ativam

uma lucidez

se por conta desse amor eu vou me dar

se já me dei

se ele for a causa de errar

eu acertei

em cheio naquilo que me faz

enfim

gostar tanto desse alguém

que aprendo a gostar até de mim

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