voo noturno

as paredes permanecerão
permanecerá aquilo que compõe da casa uma estrutura, mas eu já não sei
se o lar
se ele se prolongará
se para onde eu vou ele também estará se voltará
revelará um sentido maior do que a visão deste segundo andar sem linha do horizonte
eu via antes uma nesga dos prédios, ouvia o som do estádio
um dia vieram levaram os toldos me deixaram tanto calor e o céu
não sei se ele vai comigo para onde quer que eu vá
se da janela lateral
meu quarto de dormir
acordar viver trabalhar respirar sonhar
que será que deus deixará para colorir em outros tons de cor-de-rosa
o meu quinhão de cenário
a joia intacta mesmo quebrado este meu
relicário
entregar ao tempo ao som distante que imagino ser barulho de mar
um sacrifício de década inteira todas as noites
os segredos que colei nas paredes
os sussurros que gritei tantas vezes
as minhas fomes noturnas
minhas sedes
quem e de quem eu bebi nessa cama
o quanto me derramei
a cama eu vou levar eu sei
mas o céu o céu ficará
sei que sempre que um barco navega ele
partirá
um pedaço um bloco um iceberg uma placa tectônica de quem fomos um dia
para que num outro novo dia
um dia novo
a gente possa entender que mesmo quando não precisamos mudar
a vida precisa
a vida sozinha vai reconfigurar
as cores do céu e das paredes a casa que navegamos é o corpo que possuímos
nossa casa maior é o ar
eu carrego
carrego aqui comigo dentro de algo que fica dentro do meu coração
um livro de visitas as vozes dos fantasmas a quem servi meu sorriso de manhã
a quem ouviu do meu sono uma respiração uma prece uma oração
eu agradeço eu agora há pouco abracei de verdade a parede ao lado da minha cama
deitei no chão do quarto
fumei um cigarro imaginário na área de serviço
para assinar ainda mais quem eu fui nesse endereço
me marcar em compromisso
de seguir
de servir
de conseguir
tirar aqui de dentro uma pérola pronta de todas as impurezas que filtrei
para olhar a nesga de céu num novo cep e ter certeza de que se fui
se eu não vou voltar
é porque talvez eu tenha estado aqui presente
sempre doendo pelos lugares dos quais estive mais ausente
de mim
não sei se eu era mesmo uma habitante se eu apenas gravitava
me dá o céu, eu te peço, tempo
me dá o correr do rio, eu te vou fluir
eu vou navegar eu vou partir
mas quando passar nessa rua talvez
só talvez
venha lembrar
que se todos os palácios são palácios temporários
as paredes também não permanecerão
e como eu
ashes to ashes
recomeço é se desmoronar

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cessar-fogo

antes de qualquer outra pessoa é importante que saiba que este será sempre o seu nome somente seu um nome sagrado sussurrado escorrido deleitado feito de leite e de mel escorrido das mil constelações que explodiram a cada noite em que dormi em sua cama um nome um código um pedido de resgate de socorro pelo qual somente você poderá atender se o mundo perder os sons e eu te gritar como uma tatuagem secreta e ancestral que de agulha perfura
até o osso de quem fui numa vida passada
até o coração de quem serei numa vida futura
eu poderia ter falado antes
enquanto ainda balançávamos no mar
enquanto ainda estava longe da ilha
que era pra cá que eu navegava sem te perguntar se você também queria
vir
não te falei porque não consegui
porque não entendi. e num momento que não sei quando pode ser até mesmo agora
questionei a longa estrada percorrida até secarmos todas as tuas lágrimas
que hoje são minhas e longe da realidade–
acabo de mudar o que eu ia dizer. eu tentei lembrar e me veio essa resposta
passei minutos e minutos e minutos tentando cantar a canção que você me tocou no último domingo derradeiro domingo e ela estava ali o tempo todo criptografada desde o dia dezoito de janeiro de dois mil e quinze
em nosso mausoléu
agora eu também posso te ver do lado oposto
não consigo duvidar do quanto gosto de você
mas não quero te fazer sofrer com outra promessa
faça o que quiser, mas não permita-me
morrer
sem antes germinar
se o amor da gente é como um grão

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cubismo

não sei dizer não você me diz
escuto isso como um sim
uma provável ilusão
tá tudo bem
deve ser bom
quero acreditar porque quero acreditar e ponto
eu respeito
tuas escolhas se parecem com as minhas
eu aceito
eu repito
você ouve com a boca já entre as minhas coxas e
te suplico
trinta vezes
três
para que respire
para que respire
para que respire
entendo o coração está parando 
de bater a onda
mas a onda não para
é outra coisa nova que virá
entendo teu coração está parado
já quebrou 
a cara
talvez já até tenhamos desistido
vamos deixar isso para o amanhã
do hoje o que fica é o gosto
são os gestos
minha boca em seu pescoço e já não sei o que
fazer
no ar rarefeito você quer 
sente que é o que precisa
pede que eu te obrigue a ir
e mesmo achando que você queira muito
muito 
muito mesmo
ficar
desço do vagão
evito dizer pra te deixar
a vontade (sem crase)
caso decida partir
mas a verdade é que eu também
não

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signo de ar

o ônibus tremia eu também por dentro
não consegui focar
fracionamos
na ausência de luz no excesso de sons eu
ouvia
mas não comunicamos
a boca muda a coisa toda de não poder
tocar
mas em segredo
trocamos
o que dizer o que você queria ouvir
eu ainda não sabia
que olhando bem de perto
travestido em palavras
assuntos programados, gestos naturais
esse silêncio imenso é uma
sabedoria
me faz guardar por dentro o que você vier buscar
e mais
entrego sem oferecer
peço sem me arriscar
passo a passo vou lembrando do que não fazer
pensando num modo melhor de cometer o erro
(se é certo, que seja sincero)
aceito que me emocionam
teus detalhes
o tamanho dos cílios
o som de corte da voz
um doce de leite em panela de pressão
cabe inteiro na boca
e quando aquela – você sabe aquela – canção
volta e meia ainda toca
é replay
penso
não sei como cheguei àquele dia
mas só parece que eu voltei

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prodigal sun

queria colar um milhão de trechos de músicas, recortes, pra dizer nas entrelinhas em uma voz não totalmente minha, tudo que você, que ainda não é totalmente minha, precisa saber sobre mim. a música que ouvi na estrada pensando em como é feio quando o homem abre um sulco no morro verde, na mata, e a terra vermelha sangra os tons frios da paisagem. nessa hora a música que tocava me deu vontade de escrever isso que estou escrevendo agora – ao mesmo tempo não porque dizê-lo seria me repetir. tudo que eu menos gosto é ser de novo hoje algo que fui ontem. já faz alguns anos, escrevi sobre a despedida de um amor baseada numa música do tears for fears. o texto está por aí, em algum lugar perdido no passado, mas a ideia segue atualíssima. falar com a voz de outro alguém me isenta de crer verdadeiramente que o discurso é muito mais meu do que imagino e do que desejo que seja. as sensações que me despertam essa vontade de copiar e colar cada pedacinho na parede da tua casa, no vidro da frente do teu carro, bem na tua cara – são sensações antiquíssimas. mostram que a pessoa que rouba e finge que não roubou mora aqui dentro já faz anos e anos e ainda não se apresentou completamente a ninguém, para nada. é egoísta, vaidosa, desleal, traiçoeira, não tem remorso e morre de uma fome que boca nenhuma foi capaz de aplacar nem será. cada recorte de estrofe é uma lâmina dupla: uso para te ferir e deixá-la apaixonada pelo gosto que tem a mistura do nosso sangue, uso para me ferir e nunca esquecer que é essa é a fragmentação que vem me acontecendo. estou me derramando pela vida pouco a pouco em cada um de vocês até o dia em que estarei totalmente soca e partirei sem sem saudade e sem nunca ter me saciado. serei apenas desligada como a música que não está tocando enquanto escrevo. não vou colar mais dicas pra você, entre no labirinto por sua conta e risco. seguirei cantando.

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av

se me encontrar andando sete da noite de uma quarta-feira ao lado de um muro extenso à beira da avenida brasil você saberá e até me reconhecerá e se perguntará por que estou aqui se esse é o meu lugar eu simplesmente seguirei sem me justificar porque a cidade também me pertence e se a sua dúvida pode até me confundir pode até me enredar saiba no entanto que sua lâmina nunca cortará a sua sombra jamais alcançará meu coração é feito a única lâmpada do único poste aceso nessa escuridão de subúrbio do Rio de Janeiro e eu sei disso aqui mesmo sem sair do escritório

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saga

sonhei que você me trazia
uma bolsa cheia de coisas bonitas que vinham da ásia, roupas
especiarias
antes de partir observei o esforço que fazia para desprender-se do que é material, esquecer-se do que, naquelas circunstâncias, tinha visto e ainda conseguia ver
me entregava o que era seu porque não era mais você
então antes que mudasse de ideia de repente
caminhei na direção oposta, você para a praça XV, eu para a praça tiradentes
nos despedimos num frame sem som e escuro
até que acordei sozinha sem os teus presentes e nunca mais sonhei em possuir nada que não seja só isso que aqui existe entre o passado e o futuro

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