incompleto

I.
I saw a ghost it wasn’t yours but those eyes they look just like mine
e naquele breve instante de reconhecimento eu olhei para o céu, mas por dentro
não havia estrelas da última vez que nos vimos eu não lembro embora devesse ter registrado o momento no último beijo quando eu não sabia se tratar do último beijo
ou talvez todos que trocamos tenham sido gestos de abandonar algo de dentro e deixando partir tenhamos nos partido
milhões de fragmentos de um céu quando havia estrelas
eu vi os cometas passarem em chuva
fiz vários pedidos naquela noite perdida e sozinha muito antes da gente se reconhecer
aprendi suas feições no escuro de olhos fechados pela boca pelas mãos sua pele
o cheiro se foi dos lençóis mas impresso na carne
assim tenho acesso a um breve instante de fantasma como quando a câmera fotográfica congela numa foto não tirada um flash um breve registro de movimento tão rápido tão imenso que não gravado na retina me comove de uma lembrança que é menos imagem do que sentimento
diferentemente de mim a memória não trai
a memória sabe de cor a luz da sua voz com e sem o violão
ao contrário de mim a memória não mente e se engana quem diz ou acredita que ao passar dos anos após a morte de quem se ama
esquecemos detalhes o jeito de andar e de fazer amor a maneira de falar uma ou outra palavra maneirismos cacoetes e os detalhes mais sutis da trama
na contramão de quem sou a memória é uma rocha que vamos lapidar lapidar lapidar
um diamante bruto de sal de lágrima e muita contemplação como eu me vejo quando vejo o mar
e já não me entendo mais mas se o fantasma se erguesse das águas se tocasse minha mão se viesse em outra forma diferente da forma do teu corpo e se tornasse meu irmão
eu te reconhecerei
nas poucas coisas que não te pertencem nos poucos lugares onde você não está eu olho para tudo com olhos que não são mais meus
entenda
eu te dei o meu olhar
decifra a questão a sós colando aí os cacos do que te coube deste latifúndio
tenta ouvir a voz muda que vem lá do fundo
a distant distant cry could be me calling out your name
em silêncio para que cada uma das letras não me queime mesmo que eu queira acelerar o processo
partir sem demora para esse outro lugar onde volto a ser eu e é lá
de onde fantasma você nunca sairá
as pessoas que amamos é isso que se tornam dentro de nós e assim fossilizadas vivem para sempre num jardim de pedras e desencontros
se vou te buscar todas as vezes em todas as encarnações
se estou de fato à sua procura e apenas não fui avisada
não estive ciente se perdi o mapa
dá-me dois segundos desse teu olhar fantasma
que não é isso tudo que basta
embora mais do que suficiente
para entender que eu poderia ser de volta
bebendo da fonte do que você sente

II.
you saw a ghost it was mine but that smile wasn’t right
no tarô eu sou a rainha de um naipe cujo coração de tanto sangrar vampirizou-se
era um coração era o meu coração que batia tão alto na garganta nos ouvidos que exauriu-se suicidou-se
o som imaginário dos seus lábios me pedindo volta não foi doce
coloquei meus pés no chão ainda assim ele não trouxe
de volta a realidade sempre estivemos tão distante dela representando papéis ancestrais arquétipos que corriqueira e descuidadamente desconsideramos ao correr do jogo das nossas próprias vidas
porque quem representa sempre é o outro
é a caminhada de alguém não a nossa que está suscetível a essas mudanças de clima e à ausência de previsão e enquanto a tudo pudermos pensar ter controle
as escolhas vão nos escorrendo das mãos roleta-russa e assim mesmo aleatoriamente mudamos de papel trocamos personagens nos despimos das roupas queimá-las até podemos
riscar um fósforo para iluminar o caminho
não e necessário se
você
é
o
sol
mas quando houver outra chance
quando reembaralhados os vinte e dois arcanos faz um silêncio
abre a janela da sala na madrugada que antecede a manhã de domingo
escuta o vento reconhece o som das folhas nascendo dentro do vidro quebrado respira fundo que eu vou entrar em sintonia eu vou me guiar mesmo sem estrela eu vou chegar até onde está o espaço que deixamos vazio de sonho e de certeza das coisas limpas e lindas que meu veneno não ousou tocar
e tira também tuas três cartas
você
eu
a terceira,
cigana,
nosso será

III.
today I watched the sun go down on us descending descending descending so both ghosts – set them all free so they – can wander freely we’re now entering a land of shadows
hoje alvoreci
meu corpo não me reconhece mais
foram tantos maus tratos que se me levanto um pouco mais
ergo a alma da carne e contemplo o rescaldo
sou sargaço do mar que chorei desde que me lancei sem nenhum plano sem boias sem rede algum pra me proteger e a nós
desse salto eu voltei sem nome sem pátria sem rosto dinheiro saudade palavras me sobram mas de onde elas vêm eu nem gostaria de imaginar
é através delas o fio de prata de quem deus me animou para ser e por este mundo caminhar
que refaço caminhos tão longos em busca da pedra que me fundamenta da minha estrutura basilar
eu peço tudo se não me dão eu roubo se a proteção for muita eu explodo coloco minha bomba nuclear no centro do peito do outro eu me deito eu fecho a boca os ouvidos o coração abro bem os olhos vejo o peito estourar eu bebo o néctar eu gozo junto espero acordar e ver que os papéis que represento para me afastar de quem sou
são de um silêncio de quem já morreu
se só estou viva através do que te falo
eu te amei todas vezes em que disse que te amei
se a cama se o corpo se a carne pareciam dissipar dissolver em partículas de poeira no ar
se você é o sol
na contraluz há de conseguir me enxergar
sem que a tua clareza me cegue
sem que o teu amor me cale
sem que o teu desamor mitigue
o poder daquilo que vai transformar o que não somos
em tudo que eu queria
ter
seu amor
meu amor

 

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voo noturno

as paredes permanecerão
permanecerá aquilo que compõe a casa sua estrutura, mas já não sei
se o lar
se ele se prolongará
se para onde vou ele também estará se voltará
revelará um sentido maior do que a visão deste segundo andar sem linha do horizonte
antes eu via uma nesga de prédios, ouvia o som do estádio
um dia vieram levaram os toldos me deixaram tanto calor e o céu
não sei se ele vai comigo para onde quer que eu vá
se da janela lateral
meu quarto de dormir
acordar viver trabalhar respirar sonhar
que será que deus deixará para colorir em outros tons de cor-de-rosa
o meu quinhão de cenário
a joia intacta mesmo quebrado este meu
relicário
entregar ao tempo ao som distante que imagino ser barulho de mar
um sacrifício de década inteira todas as noites
os segredos que colei nas paredes
os sussurros que gritei tantas vezes
as minhas fomes noturnas
minhas sedes
quem e de quem eu bebi nessa cama
o quanto me derramei
a cama eu vou levar eu sei
mas o céu o céu ficará
sei que sempre que um barco navega ele
partirá
um pedaço um bloco um iceberg uma placa tectônica de quem fomos um dia
para que num outro novo dia
um dia novo
a gente possa entender que mesmo quando não precisamos mudar
a vida precisa
a vida sozinha vai reconfigurar
as cores do céu e das paredes a casa que navegamos é o corpo que possuímos
nossa casa maior é o ar
eu carrego
carrego aqui comigo dentro de algo que fica dentro do meu coração
um livro de visitas as vozes dos fantasmas a quem servi meu sorriso de manhã
a quem ouviu do meu sono uma respiração uma prece uma oração
eu agradeço eu agora há pouco abracei de verdade a parede ao lado da minha cama
deitei no chão do quarto
fumei um cigarro imaginário na área de serviço
para assinar ainda mais quem eu fui nesse endereço
me marcar em compromisso
de seguir
de servir
de conseguir
tirar aqui de dentro uma pérola pronta de todas as impurezas que filtrei
para olhar a nesga de céu num novo cep e ter certeza de que se fui
se eu não vou voltar
é porque talvez eu tenha estado aqui presente
sempre doendo pelos lugares dos quais estive mais ausente
de mim
não sei se eu era mesmo uma habitante se eu apenas gravitava
me dá o céu, eu te peço, tempo
me dá o correr do rio, eu te vou fluir
eu vou navegar eu vou partir
mas quando passar nessa rua talvez
só talvez
venha lembrar
que se todos os palácios são palácios temporários
as paredes também não permanecerão
e como eu
ashes to ashes
recomeço é se desmoronar

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cessar-fogo

antes de qualquer outra pessoa é importante que saiba que este será sempre o seu nome somente seu um nome sagrado sussurrado escorrido deleitado feito de leite e de mel escorrido das mil constelações que explodiram a cada noite em que dormi em sua cama um nome um código um pedido de resgate de socorro pelo qual somente você poderá atender se o mundo perder os sons e eu te gritar como uma tatuagem secreta e ancestral que de agulha perfura
até o osso de quem fui numa vida passada
até o coração de quem serei numa vida futura
eu poderia ter falado antes
enquanto ainda balançávamos no mar
enquanto ainda estava longe da ilha
que era pra cá que eu navegava sem te perguntar se você também queria
vir
não te falei porque não consegui
porque não entendi. e num momento que não sei quando pode ser até mesmo agora
questionei a longa estrada percorrida até secarmos todas as tuas lágrimas
que hoje são minhas e longe da realidade–
acabo de mudar o que eu ia dizer. eu tentei lembrar e me veio essa resposta
passei minutos e minutos e minutos tentando cantar a canção que você me tocou no último domingo derradeiro domingo e ela estava ali o tempo todo criptografada desde o dia dezoito de janeiro de dois mil e quinze
em nosso mausoléu
agora eu também posso te ver do lado oposto
não consigo duvidar do quanto gosto de você
mas não quero te fazer sofrer com outra promessa
faça o que quiser, mas não permita-me
morrer
sem antes germinar
se o amor da gente é como um grão

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cubismo

não sei dizer não você me diz
escuto isso como um sim
uma provável ilusão
tá tudo bem
deve ser bom
quero acreditar porque quero acreditar e ponto
eu respeito
tuas escolhas se parecem com as minhas
eu aceito
eu repito
você ouve com a boca já entre as minhas coxas e
te suplico
trinta vezes
três
para que respire
para que respire
para que respire
entendo o coração está parando 
de bater a onda
mas a onda não para
é outra coisa nova que virá
entendo teu coração está parado
já quebrou 
a cara
talvez já até tenhamos desistido
vamos deixar isso para o amanhã
do hoje o que fica é o gosto
são os gestos
minha boca em seu pescoço e já não sei o que
fazer
no ar rarefeito você quer 
sente que é o que precisa
pede que eu te obrigue a ir
e mesmo achando que você queira muito
muito 
muito mesmo
ficar
desço do vagão
evito dizer pra te deixar
a vontade (sem crase)
caso decida partir
mas a verdade é que eu também
não

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signo de ar

o ônibus tremia eu também por dentro
não consegui focar
fracionamos
na ausência de luz no excesso de sons eu
ouvia
mas não comunicamos
a boca muda a coisa toda de não poder
tocar
mas em segredo
trocamos
o que dizer o que você queria ouvir
eu ainda não sabia
que olhando bem de perto
travestido em palavras
assuntos programados, gestos naturais
esse silêncio imenso é uma
sabedoria
me faz guardar por dentro o que você vier buscar
e mais
entrego sem oferecer
peço sem me arriscar
passo a passo vou lembrando do que não fazer
pensando num modo melhor de cometer o erro
(se é certo, que seja sincero)
aceito que me emocionam
teus detalhes
o tamanho dos cílios
o som de corte da voz
um doce de leite em panela de pressão
cabe inteiro na boca
e quando aquela – você sabe aquela – canção
volta e meia ainda toca
é replay
penso
não sei como cheguei àquele dia
mas só parece que eu voltei

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prodigal sun

queria colar um milhão de trechos de músicas, recortes, pra dizer nas entrelinhas em uma voz não totalmente minha, tudo que você, que ainda não é totalmente minha, precisa saber sobre mim. a música que ouvi na estrada pensando em como é feio quando o homem abre um sulco no morro verde, na mata, e a terra vermelha sangra os tons frios da paisagem. nessa hora a música que tocava me deu vontade de escrever isso que estou escrevendo agora – ao mesmo tempo não porque dizê-lo seria me repetir. tudo que eu menos gosto é ser de novo hoje algo que fui ontem. já faz alguns anos, escrevi sobre a despedida de um amor baseada numa música do tears for fears. o texto está por aí, em algum lugar perdido no passado, mas a ideia segue atualíssima. falar com a voz de outro alguém me isenta de crer verdadeiramente que o discurso é muito mais meu do que imagino e do que desejo que seja. as sensações que me despertam essa vontade de copiar e colar cada pedacinho na parede da tua casa, no vidro da frente do teu carro, bem na tua cara – são sensações antiquíssimas. mostram que a pessoa que rouba e finge que não roubou mora aqui dentro já faz anos e anos e ainda não se apresentou completamente a ninguém, para nada. é egoísta, vaidosa, desleal, traiçoeira, não tem remorso e morre de uma fome que boca nenhuma foi capaz de aplacar nem será. cada recorte de estrofe é uma lâmina dupla: uso para te ferir e deixá-la apaixonada pelo gosto que tem a mistura do nosso sangue, uso para me ferir e nunca esquecer que é essa é a fragmentação que vem me acontecendo. estou me derramando pela vida pouco a pouco em cada um de vocês até o dia em que estarei totalmente soca e partirei sem sem saudade e sem nunca ter me saciado. serei apenas desligada como a música que não está tocando enquanto escrevo. não vou colar mais dicas pra você, entre no labirinto por sua conta e risco. seguirei cantando.

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av

se me encontrar andando sete da noite de uma quarta-feira ao lado de um muro extenso à beira da avenida brasil você saberá e até me reconhecerá e se perguntará por que estou aqui se esse é o meu lugar eu simplesmente seguirei sem me justificar porque a cidade também me pertence e se a sua dúvida pode até me confundir pode até me enredar saiba no entanto que sua lâmina nunca cortará a sua sombra jamais alcançará meu coração é feito a única lâmpada do único poste aceso nessa escuridão de subúrbio do Rio de Janeiro e eu sei disso aqui mesmo sem sair do escritório

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