acordei o teu corpo dentro do meu e me sinto tão sozinha ainda. o sexo agora me esvazia, pede de mim uma pureza de delicadeza que eu não sei mais onde encontrar. o que deveriam ser ritos de passagem e celebrações das minhas próprias escolhas, tornaram-se música que eu não sei a letra. só me deixo levar. como nós dois dançamos eu não vou mais saber dançar. a solução que seria procurar o prazer em outras artes não justifica a perda de um dos meus sentidos. apenas te ver no fundo dos olhos dos outros, esquecer o som da sua voz, ver o teu cheiro repetido num perfume de mesmo rótulo usado por outro alguém. arrumaram um jeito – o mundo sempre tão capaz – de reproduzir as tuas sensações em experiências diferentes. nada é exclusivo.
se agora o teu corpo acorda dentro de outra mulher, a culpa é minha. muito embora teu coração já estivesse exposto à flor da pele mesmo antes de eu chegar, a culpa é minha. agora a criança que toca, ponta dos dedos, língua no teu mamilo, esse coração, sequer vai saber que eu estive aí ou como é que ele aprendeu a bater. o sal do suor e as suas lágrimas, uma chuva de carros correndo em alta velocidade, vai lavando as marcas que deixei. deveria ter cravado mais as unhas, misturado o teu sangue no meu, ter mais a tua mão na minha boca a me pedir silêncio para o nosso amor em braile. parei de ler desde quando você foi embora.
nessa manhã de domingo eu acordei tendo perdido a cor branca nas manhãs. é um dia novo no céu desse ano novo. não sei bem por que, mas as nuvens continuam desenhando padrões que não consigo interpretar sem ver. com o antebraço sobre os olhos não quero que me vejam. a mulher que me tornou a ex-mulher dos teus sonhos, essa mulher também sou eu e acho que acordo vazia porque não posso abrir os olhos sem mim. talvez eu acorde vazia porque não posso encher a vida de mim sem verdadeiramente estar aqui. de presente, ainda não sei se me faz mais feliz ser responsável pelo passado ou inocente pelo futuro.
o meu corpo sem o teu balanço é só perda de tempo. é uma casa cheia de tudo e sem felicidade, de pessoas bêbadas e cansadas que se entregam por burocracia. porque é preciso fazer amor antes que tudo morra, antes que não dê mais tempo. e porque é preciso fazer amor antes que tudo morra, que não dê mais tempo, eu durmo nos teus braços todas as noites. essa coisa que pesa e te parece uma indiferença, na verdade é minha grande arma. é o que disfarça e mascara a minha alma enquanto ela vaga pra fora do corpo e vai até a tua cama. eu durmo vazia e acordo em outro dia que é ainda o mesmo. onde o teu amor era o suco de laranja, a música em repeat que ficava tocando baixinho durante toda a madrugada. era tudo muito difícil porque eu estava cheia de mim. é muito mais difícil agora que estou vazia de você.