marcas de cigarro em minhas mão trazem o cheiro do incenso. sândalo e algum outro almíscar, viajante da china até aqui, agora perfumam as coisas que toco. as guimbas e o pó finíssimo misturam-se no parapeito da janela e o que o vento leva me faz agradecer por adoçar a casa com o aroma de duas coisas que não sou. as estrelas do oriente à céu aberto, o mar de estrelas incomensuráveis que meus dedos tocam espalhando a fumaça de um trago. acendo incensos há pouquíssimo tempo – só agora percebi que eles não incomodam quem passa (o perfume fica nas mãos de quem oferece); há muito mais fumo eventuais cigarros. vacilante, sempre fora de casa. meu monóxido particular perdido entre o câncer dos ônibus e da decomposição do lixo urbano. o meu medo da morte é o mesmo mas menor que a vergonha de me envenenar publicamente.
as marcas, no entanto, continuam. os elementos da água em sua claridade de limpeza que me perdoem, mas é no fogo que se une a carne ao espírito. no meu colo, nos cantos dos dedos, na coxa esquerda. esses pontos escuros na minha pele guardam alguma beleza: são estrelas cadentes. continuam brilhando mesmo mortas sobre a pele morta sobre a pessoa morta sobre a morte dos cigarros que há muito já se decompõem, lixo urbano, enquanto acendo outros e caminho.
os incensos guardam a mesma natureza de fogo embora queimem de dentro pra fora. desde criança me inquieta o mistério do bastão de perfume guardar a chama sem que eu possa vê-la. as cinzas já existem antes de cair? o que fazer com os pedacinhos finos de madeira que se acumulam, multicoloridos, no canto onde bate o sol da manhã? sempre desejei uma casa clara, luz entrando em todas as horas de luz de um dia, poucos móveis, muitos quadros, o barulho do mar uma linha finíssima de óleo sobre a liquidez das buzinas. aquela sou eu, costas nuas, plano aberto, fumando e chorando na sacada. você seria o amor da minha vida, seu cabelo bagunçado, imperfeições no seu sorriso e posso e já te reconheço no que parece um esboço muito bom de nós.
comecei a decantar, flores e substâncias tóxicas, porque estou acesa de dentro pra fora. pedra contra pedra, repetimos as mesmas palavras, pensamos coisas ao mesmo tempo até que uma gota de luz começa a queimar. queimam na sua casa também, as sobras do mundo dos outros, do lixo dos outros. acende um cigarro na sua varanda e chora sob um céu aberto de estrelas pra você, distante dois túneis de mim. o perfume de passado e de futuro que procuro simular ao meu redor quer trazer o seu corpo, suas marcas, pra encontrar o meu próprio corpo, encobrir as minhas marcas. cinzas batidas se acumulam no fundo do copo. quantos mais copos até esse refugo exalar.
por isso disperso os detritos no vento e o vento sopra de volta essa força em mim. as partículas acesas são as marcas de cigarro em minhas mãos; as apagadas, são a mesma marca de cigarro em suas mãos porque fizemos as mesmas escolhas. você descobrindo o meu gosto. e por medo de me revelar demais antes da tua língua me encostar, estou fumando muito, acendendo mais incensos. quem sabe a fumaça mascara não a mulher que alguém perdeu mas a mulher que me tornei apesar de. fumo e acendo pétalas na noite para afastar e atrair o que livre, não me pertence e o que, escravo, traz em si as mesmas marcas.
escreve muuuuuuuuito!
maravilhoso.