que burrice é não acreditar que somos túneis e que se nos atravessam as balas, porque não nos atravessariam as pessoas. um dia um homem não morreu porque uma medalhinha de alguma nossa senhora no bolso da camisa se atreveu a segurar o tiro. o peito se abriu pra entrar a luz de afogamento que antecede o fim e ele a viu. foi essa luz que coloriu o céu no verão de 2001, em um cidade subdesenvolvida no litoral do rio de janeiro. aquele mar no fim da praia era feito dessas cores que também estavam nas flores no dia em que finalmente ele morreu. porque as coisas fatalmente morrem envolvidas em cores de invisível velocidade. pintadas nas paredes do túnel, estamos correndo demais para chegar onde essa beleza não está.
tudo vai passar por nós e nos atravessar e nos perfurando, dessa escavação o resultado é vazio. estamos cheios dos espaços vazios dos outros. essa certeza é a fonte de uma mansa paz que me faz saber que eu sou através do que não tenho mais. os fantasmas chiando na televisão se comunicam com o meu passado uma vez ou outra, sorriem pras coisas que eu não esqueci. porque eu sou muito mais o que já fui do que gostaria de ser. porque me encontro muito mais onde já estive do que onde gostaria de ir. no paradoxo do túnel, de ser constante através da passagem, sinto o cheiro do teu amor morto quase como o das flores nas coroas, vivas.
que besteira achar que construimos qualquer coisa além de túneis. que o que faço vai além de querer passar por você e virar sua passageira. do lado direito do rebouças, correndo num táxi pela madrugada, eu aprendi que nem toda a terra do planeta pode destruir um espaço entre duas saídas. que nem toda a terra do mundo vai trazer de volta o que já está passado e que nunca poderia continuar existindo senão nessa conjugação. túneis são feitos de mágica, são feitos da matéria-prima das ondas, da astronomia da queda de uma estrela, da imensidão dos grãos e partículas viajando pelo ar. a vida é mais simples para quem não sobe morros.
a música parou por dois minutos. foi tempo suficiente para perder aquela frase, meu amor, que dizia do pra sempre das coisas e suas pontes indestrutíveis. o rádio voltou do outro lado. mas isso não é uma ponte, cuja arte se propõe a amestrar espaços sem nada deles tomar para si. nada se perde nelas e com elas, muito pelo contrário, têm-se a oportunidade de trazer aço para o vazio. os túneis domam leões e trazem vazio para o espaço. abri-lo e sê-lo é destruir a natureza para abreviá-la e nessa fúria, no desejo, descobrir-se no escuro à milhas e milhas distante do mar. e você que correu comigo para vê-lo, chegou ao litoral, em 2011, sem mim.
é burrice acreditar que o vento soprando no teu rosto não sabe meu nome. esse vento pode não ser eu mas o som que ele faz ao atravessar teu corpo só se propaga no eco do buraco que deixei. do outro lado de um outro túnel, vamos passar pela terra que saiu de nós e nunca vai
passar.