mimada

volta aqui. traz outro bolo e a gente pode fingir que é de novo o meu aniversário. dessa vez eu vou pedir, quando assoprar a vela, pra que o meu amor por você se torne real. pra que eu te entregue as cartas que não escrevi e para que essas palavras sim, signifiquem alguma coisa verdadeira. como é preciso tomar pelas mãos as crianças e guiá-las, das mais simples às necessidades mais complexas. crianças não veem fantasmas mas agora é o teu que me ensina a não chorar quando escovar os dentes, a ter fome quando me apresentarem o prato de comida, a não calar o que penso por medo do que meus pais possam, quem sabe, pensar. será sempre preciso insistir em uma educação mais rígida do que os meus instintos – de fuga, de entrega, de resignação -, como num cansativo pique-pega até o fim do dia. sem ar, você me diz que não era para ter corrido tanto e que não importa onde me escondesse, você já sabia onde me achar.

volta aqui e me encontra. no mesmo lugar, com os mesmos vícios de alguém não doutrinado. crianças são como cavalos e bicicletas: uma vez ensinados nunca mais esquecidos e sempre obedecendo as leis da força dominante. um bom cavalo se manterá de pé quando a montaria desabar e não vai pisá-lo quando for ao chão. uma boa bicicleta não soltará as raias da roda e rasgará seu joelho (porque ele já estará sangrando). entre os castigos aplicados mais eficazes estão o descaso: quando você não parte o pão, não me alimento; quando você não acende uma luz eu vejo coisas no escuro do quarto; a indiferença: quando você não aplaude meus rabiscos e seus significados, quando não está na plateia dos meus teatros; e o perdão: uma vez perdoado o primeiro pecado ela sempre pecará. e sem a escolástica embutida na dor não haverá pesadelo que sustente o respeito necessário à uma relação de fidelidade. a sua mão que me afaga me bate e é o mesmo gesto de amor.

volta aqui e me obriga a levantar do chão, a desfilar a vergonha na frente dos outros e me obriga a não ceder ao primeiro sorriso de piedade. nada de bom que vier da misericórdia alheia contribuirá para o meu sucesso. e o que é mesmo o sucesso senão retornar para casa e dormir e acordar novamente depois dos fracassos? sucesso, me lembra você, é ter uma casa para onde retornar. se você vai embora eu não tenho nada na noite, eu não tenho força pro dia ou quem ajuste o meu despertador e me empurre pra fora da cama porque a vida não vai parar pra me esperar ficar pronta. invariavelmente as aulas começam às sete e a prova total da falta de compaixão exterior está no fato de que nenhum amigo vai me ensinar o que eu perdi. não existem amizade sem sangue.

volta aqui porque você é meu irmão, porque o seu amor é maior do que as nossas fraquezas. porque o meu amor são as palavras escritas de trás pra frente, quando como eu tinha três anos e dizia “eu te amo” misturando letras quaisquer. o sentido do gesto era maior do que sua semântica e mesmo desse desencontro de gerações podia, e nascia, alguma coisa muito maior. você sabe mais do que eu, é verdade. enquanto cresço assumo a dor de não ser tão boa quanto você é, porque chegou primeiro na vida e já imaginou muitas vezes o desespero de me perder só para reforçar e evitar a dor de uma perda real. não deixe que eu me afaste nessa multidão de luzes de natal porque as lojas sempre brilham mais do que a casa da gente.

volta aqui e acende de novo a vela do meu aniversário. não só pra que o brilho dessa luz caseira possa me hipnotizar, mas pra que o fogo em suas mãos me aqueça quando os convidados se forem. é mesmo só você e eu, ninguém se move no universo aqui na sala. abro os presentes em silêncio e choro, não de alegria, mas porque não sei o que fazer deles sem você pra dividir a brincadeira. não sei como ligar a máquina, não sei como evitar o corte. e se as fotos estiverem vazias no ano que vem é porque o seu pedaço de bolo foi o primeiro

e único.

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Filed under livre, só comigo

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