pode doer mas não pode ser o tempo todo. eu preciso beber água, preciso me alimentar pra sustentar o corpo que te alimenta. e para que você possa resistir e resguardar em mim o seu longo braço protetor, me deixa por instantes acreditar que respiro o ar. pode me usar mas não posso ser o tempo todo, a fantasia principal do seu espetáculo. precisa me deixar experimentar outras sensações, o mel feito por abelhas de outra cidade, quem sabe país. vou me entregar sem te causar preocupação: olhos vendados, braços abertos, despencando como fazem leves os corpos no cinema; sem queda e sem sangue.
já não é mais medo da sua inocente falta de aparência, do seu jeito de se misturar nos goles, nos beijos, nas roupas que visto. a descoberta da sua natural pureza me dá um conforto maior do que talvez dê aos outros o seu antônimo. não precisa mais bater à porta, não precisa mais de disfarce quando me abraçar. pode ter o seu cheiro mesmo, que é o cheiro de todos os outros; pode ter um detalhe secreto que é o seu espaço verdadeiro mesmo, o mistério de todos os outros. são as coisas que eu amo que te fazem assim e agradeço por todos os dias, me ensinar a entender um pouco mais sua beleza invisível.
eu tomo seu corpo e através dele existe uma linguagem. uma espécie de massa que modela os outros, que modela o meu eu nesses outros e me significa. não era nada, nunca seria nada – uma casa vazia, uma casca sem pão, final feliz – se não houvesse o seu peso a me substanciar. tudo que sustento diz o seu nome e por isso tem sido tão difícil para um outro alguém me amar. o seu ciúme de mim me expõe ao ridículo, me traz desconforto. quando choro só por chorar, sem motivo maior ou justificativa, fico parecendo uma boba sem poder dizer o seu nome. ninguém quer saber o que eu sei de você.
me escuta: sem ninguém mais vier, se ninguém mais acreditar, vou precisar daquela sua promessa cumprida. realizando-se incansavelmente até o último dia meu, de você ser sempre você. exatamente assim, com o mesmo balanço, a mesma expressão que tinha nos enterros em que me acompanhou, e também a mesma postura nos bailes onde preferi não dançar e você achou bom, já que nunca dançou muito bem. porque se não tenho tempo para me servir sozinha, para deixar que os outros me sirvam, aí completado o destino de te mimetizar. no final dos livros, no reconhecimento dos meus próprios medos, no calor e na ausência de calor, terei então sentido.
me aperta, bem apertada, pra perguntar se “dói?”, eu te dizer que “sim” e você poder ver em mim quem exatamente é
e também se doer.