e que nem eu vou saber explicar

diploma

obrigada, meu querido amigo pela inspiração. acabei de dar o play em ‘fast car’, da tracy chapman e o sol queimando lá fora não se moveu meio milímetro nos últimos quatro anos. é exatamente o mesmo astro que me acompanhava de sonhos enquanto andava a rua são francisco xavier até o ponto de ônibus. ele mesmo quem brincando de nuvem fazia a sombra no meu rosto enquanto corríamos a rua conde de bonfim em direção à usina. dois mil e seis agora é um ano à mais no calendário e a cada ano que passa recebe a companhia de outras cascas de laranja e anos gastos que já bebi.

em dois mil e seis usava calças largas e tinha um arco íris de all stars para cada dia e estado de espírito. isso, os all stars, agora importam pouco. sinto que é melhor e que mesmo descalça sei de cor as pedrinhas e pedacinhos de cimento da calçada que beira a rua uruguai. em dois mil e seis eu chorava quando não o sol, mas as nuvens encostavam na janela do ônibus e protegiam minhas sardas menos evidentes. dezessete anos depois de fazer lar e história num outro bairro, numa outra vida, me vi numa tarde banhada de sol num apartamento vazio na tijuca.

obrigada, minha querida amiga pela inspiração. acabei de me lembrar que essa sua frase, cabe aqui: ‘every new begining comes from some other begining’s end’. era dois mil e seis e eu tinha tantas coisas pra provar pra mim mesma que nem me dei conta que já sabia. já sabia que estava proibida de reconhecer a beleza solene daquele momento, daquela inauguração. se o percebesse, se chorasse porque tinha chegado a minha vez, nessa alegria eu perderia de vivê-la. eu perderia tudo se soubesse que o futuro me reservou continuar amando até mesmo aqueles que nunca me amaram como gostaríamos que tivessem amado.

minhas sardas se multiplicaram pelo corpo. as estrelas do céu de verão que param e descansam sob a copa das árvores. como num retrato, aqui embaixo nos vejo todos sentados, um ao lado do outro, dizendo coisas que não posso ouvir. estamos congelados e essa é uma daquelas fotografias que se levam pra análise com medo de que se tenha capturado um fantasma. cada um de nós envolto sob um fio invisível de luz que sobe, sobe, sobe e se prende, inexoravelmente, a cada uma das mais claras estrelas do céu de verão. esse céu, casa do sol que me queima desde dois mil e seis, definitivamente sempre esteve aqui.

há quatro anos atrás eu sonhava com coisas que agora estão no passado. esperava esses instantes, de cortar a fita, de soprar a vela, de oferecer o primeiro pedaço de bolo, e neles eu gostaria de poder morar para sempre. o meu clichê era a sessão da tarde e nessa habitação perfeita e sem dores eu construía uma motivação – ausente de realidade, afundada de força e de mim.  por testemunha de que muitas dessas coisas ainda são as mesmas, o astro do verão sem chuvas no rio de janeiro. é o mesmo, exatamente sem tirar nem por o mesmo sol que nos faz correr atrás das sombras à espera de descansar.

se eu soubesse que esses oasis permaneceriam intactos, hoje desocupando-se para que outros de mim possam habitar, não os teria habitado. em algumas horas, quando receber o pedaço simbólico de papel que me acena dizendo ‘pode ir’ – estarei livre enfim. mas do quê, livre do quê finalmente, não sei. as letras das músicas que eu cantava em dois mil e seis podem ser cantadas pelos meus lábios sem que eu erre sequer uma palavra ou acorde. cada letra delas combina perfeita e exatamente com as pedrinhas que reluzem no asfalto da conde de bonfim com uruguai ao meio dia de um dia qualquer, de um ano qualquer.

agora vamos beber, comemorar, tirar fotos e chorar pela ignorância que nos arrastou até aqui. através do copo de vidro ao alto – todos os rostos deformados pelo líquido embora rostos que eu reconheceria mesmo na transparência de uma pedra – posso brindar quatro vezes trezentos e sessenta e cinco dias consecutivos, em todas as suas falhas. quero que você saiba que minhas omissões foram essas mesmo e que meus pecados procuro perdoar quando abro os olhos e sei que não vou te encontrar pra que me redima. no seu infinito amor de amigo, de irmão. no seu carinho tão leve de brisa e lembrança do verão que não aproveitamos juntos (mas que a cada novo encontro prometemos realizar).

se eu souber o dia de sol que esse verão começa, terei perdido você e à mim. então acho que hoje, quatro anos depois, o jeito é nunca haver o dia de dizer ‘vamos para o mar no próximo feriado’. esse momento provavelmente chegará e será passageiro como a bolha do mar na areia, como o som seco do vidro estalando no momento em que brindaremos logo mais tarde. amanhã também, nesse novo ano de década completa, pode ter certeza de que vou pecar um pecado novo em sua homenagem. há quatro anos atrás minha bandeira logo te diria ’sou tudo, menos uma egoísta’ – mas amanhã, ela negará tudo isso em sua homenagem.

eu passo pela esquina da rua uruguai e acredito que meus pés sem all star são os heróis da nossa anti-novela. ou anti-heróis da nossa reportagem. me trouxeram até aqui por milhares de caminhos únicos e sabem, certamente, qual será a data certa de fazer a meia volta e partir em uma das quatro cardeais direções. elas não nos afastam porque esse é o meio das nossas vidas e para frente e para trás não temos nada além. então se esse é o meio de nossas vidas e agora eu sei, preciso desaprender. é nesse momento que as certezas caem como luvas nas mãos que se apertam, nos beijos que trocamos e tocamos a eternidade.

não quero, e já não estamos mais em dois mil e seis, saber quem somos e que somos felizes porque eu perderia de viver. e de tudo que me aconteceu e acontece – sei de certeza (como sei o sol lá fora), que eu apenas

vivi.

(leia antes de me usar)

(sem assunto)

há um delicado mistério se desenvolvendo enquanto pousa a borboleta sob a água. um delicado mistério cuja física teima em responder e explicar como tensão superficial – essa pequena camada impenetrável de água e que permite a borboleta sem voo, contemplar o horizonte de cima de um castelo de ar. essa delicadeza, essa pequena brecha no equilíbrio do universo, é também da mesma mágica que faz nunca existir o agora. enquanto penso no instante que estou vivendo, automaticamente essa fração de tempo já nem existe mais e a borboleta poderá afundar seu peso dentro da bolha. ao seu redor agora espalham-se milhares de micro gotículas de transparente água. essa imensidão de líquido, não navegável, é agora um novo mistério. como se antes dominada por todo o peso do corpo do inseto em sua superfície, agora indomável para este mesmo corpo depois que se abriu a fresta.

nessas pequenas considerações se criam também todos os meus mistérios. mais leves que a borboleta sob a água, mais pesados que o ar sob o seu corpo.

mrs.

me perder é metade não dormir em casa durante cinco dias seguidos e metade não dizer de verdade o seu nome. assumir sem assumir uma vontade cortante que já me habita há três meses sem dar qualquer sinal de que irá me abandonar. me perder é metade olhar nos seus olhos só por olhar e metade olhar e negar dizer o que precisamos que eu diga. minhas palavras me salvariam de mim e te dariam a deixa pra se ferir e abandonar num mar de desculpas que já estão formatadas. sua evasão, constante estado de esquiva que não te deixa selar contato comigo, é na verdade uma súplica para que eu não dê o primeiro passo.

se eu o der agora, pé na embreagem, de primeira ainda com o sinal aberto (porque você abriu o seu sinal pro meu carro); se eu o der agora, obrigatoriamente você se esconderá. finge muito e se abstém e me suplica por não entender nada do que eu tanto quero que você concorde porque, a partir do momento, nesse momento das nossas vidas, se você assumir que entende – nos perderemos. você ainda não pode me olhar no espelho quando se olha no espelho, vê em seus olhos e sabe que já estou aí mas não pode dizer que sou eu quem você vai amar agora. e mesmo que não vá me amar agora, eu sou quem você quer amar agora e querer é muita coisa quando não se pode fazer nada. nosso fardo é essa condição de espera, a conexão telefônica correta embora o número esteja ocupado. seu caramujo ainda  pequeno demais pra dois.

seu corpo dilatado preencheu de dor cada micro centímetro da casa onde você mora e agora, sei que é só agora, você não pode me deixar entrar. te disse, alto e bom som, que entendo seus porques. entendo seus porques de verdade e de mentira. suas ausências de corpo presente, seu sorriso sem mostrar todos os dentes, entendo a coragem de colocar a mão nos seus cabelos e dizer (ainda que disfarçadamente por trás de outra frase) que tudo vai passar, que tudo vai ficar melhor numa manhã sem maiores explicações. que vou esperar você o tempo que for preciso esperar. em pé, na fila do pão, vou esperar você mesmo que seja para não darmos certo. por isso entendo você não estar estando, entendo você falar não falando e quero completamente tudo que lhe pertence e compõe até mesmo de espaços vazios.

parece exagero mas tenho sede do que você chora. suas angústias passariam pelos meus lábios, pela minha boca, descendo de elevador até a porta de entrada da minha corrente sanguínea. diluir através do meu corpo tudo aquilo que hoje te faz sofrer e perdoar em seu nome coisas e pessoas com quem você já não pode mais lutar. meu suor evaporando a cada passo que dou na sua direção atuaria como uma gota do perdão que é preciso existir pra que você novamente exista. você precisa esquecer aquele nome. precisa parar de repeti-lo, precisa parar de acreditar que repeti-lo à exaustão vai te libertar porque é exatamente a lassidão de pronunciá-lo o que te prende. precisa esquecer o som dessas três consoantes e duas vogais misturadas e se deixar alvejar pelo alfabeto caindo, gota a gota, sobre a sua cabeça.

milhares de formatos e composições têm as palavras que quero te dizer e te entregar. uma delas tem o formato e a cor do meu nome escrito no seu caderno de coisas escritas que eu sei que você tem. meu nome, do exato tamanho de ponta a ponta do seu travesseiro, esse lugar onde habitam as combinações de letras exatas pra te abrir e as quais eu queria saber pra abreviar o nosso destino. mas não posso. posso ampliar minha angústia não dizendo as cinco letras do seu nome que à toda hora vêm à boca. posso reduzir meu horizonte se o disser e você ainda não reconhecer ao som da minha voz a sirene e os alarmes que te movem na direção do trampolim, impulso pra cima, gravidade pra baixo, mergulhando em nossa habitação.

me perder é metade dizer essas coisas e tornar óbvia demais a mensagem e metade acreditar que nada disso é verdade. que estou criando um supra universo paralelo, uma vastidão de dias e momentos unidos que compõe uma realidade onde é possível dizer que te tenho. mas não tenho medo. essa é uma grande virada. se tudo aquilo que prometemos ser em reciprocidade, no fundo se reduzir à nada – gastamos tempo e ganharemos o seu perdão. eu, ilesa por ter tentado; ela, redimida pela evaporação total de suas partículas. mas especialmente e sobretudo: você, por ter se reencontrado

em nós.

planisfério

ando pela cidade reconhecendo você em tudo que originalmente não te pertence. depois de alguns anos, as esquinas e seus nomes que antes me pareciam distantes e confusos, transformaram-se todas em lugares que posso facilmente possuir com meus passos. não há nada, nenhuma dúvida, problema de horário ou desconhecimento geográfico que verdadeiramente me impede de andar pela praça xv ou pela marquês de são vicente. as ruas mais próximas da minha casa e até mesmo a rua onde ela está, algum dia já pareceram com as ruas que me engoliam em sua antipatia.

agora, não mais. subo e desço tantas vezes quanto achar necessárias a conde de bonfim e não enjôo de nenhum dos seus traços. gosto das esquinas rotas que me lembram a ideia que faço do pós-guerra na europa oriental; gosto das pessoas que bebem nos bares de cadeiras plásticas sempre iguais; dos quebra-molas gastos sem poder de frenagem qualquer; do mobiliário urbano que não comporta as raízes de árvores centenárias em toda a sua arte de permanecer. os muros pintados e seus misteriosos autores que não se revelam, que não se revelarão jamais, me trazem a falsa lembrança de que as ruas do seu bairro em curitiba também tinham marcas de gente.

você pode andar pela cidade que me pertence sem que eu faça qualquer interrupção ou objete. não quero frear seus impulsos de pertencer e se sentir em paz nesse braço de mar e remanso que é o rio de janeiro. aqui, todas as pessoas como você são bem vindas e podem interromper sem qualquer sombra de problema o remanso dos transeuntes. quando vejo o seu corpo estrangeiro deixando pegadas no meu território não sinto, em tanta obviedade, meu espaço invadido. se amplificado, porém, perderiamos metade das chances que já são pequenas de nos esbarrarmos do mesmo lado da calçada, indo na mesma direção.

o que me resta é andar pela cidade reconhecendo você em tudo que originalmente não te pertence, na expectativa de compactá-la ao máximo, fragmentá-la tanto que já não seja possível perder seus passos em outra placa tectônica qualquer em viagem de volta para curitiba. aliás, curitiba é uma cidade com ou sem esquinas rotas? com ou sem pessoas iguais, de camisetas iguais, histórias iguais e que com isso nos fazem sobressair radiantes da concepção monótona de ‘pertencer’?

sinto que estou profundamente me apaixonando por cada átomo de grão de areia escondido entre outro átomo de grão de areia aqui debaixo das pedras portuguesas. preciso confessar que isso dói muito e que sei que as paixões, como se perdem átomos no toque do encontro e da separação, perecem e se fundem n’areia. seus pés caminhando magnetizados pela energia da minha cidade deveriam ter sido alertados que no fundo é todo o mesmo pó de qualquer lugar do brasil. você vai à curitiba, pode ir e de novo voltar, mas as cidades de uma maneira geral não se atém à sua invisibilidade quando falamos de nós.

ando pelas ruas da cidade sem procurar reconhecer seu rosto na fila enquanto espero o ônibus do metrô. se te encontro em outro rosto, sorrindo e dizendo que me atrasei, não é por minha culpa. são as cidades, aqui ou no sul, que nos promovem essa sensação estéticamente pautada no conforto dos elementos estáticos. ônibus circulares são uma boa metáfora, assim como o próprio metrô – coisas que nos levam para lugares opostos mas nunca completamente desligados do nosso ponto de partida.

quero dizer que, lá ou cá, cariocas ou curitibanos, andamos disfarçados de quem precisamos ser para que não nos percamos um do outro. finjo que sonhei contigo na esperança de que entenda que passei a noite pensando se encontraria a sua voz perdida num papo qualquer em uma esquina ao meio dia.  ando sem pressa ao redor de tudo que é nosso porque reparti contigo o que me faz mais intensamente ser o que não quero, sou o que não sou. cada poste de luz que se apaga é como se te dissesse que esperei o tempo todo pra te reconhecer. mesmo no escuro, nas horas criadas para que exatamente nada seja um domínio,

agora ando em qualquer cidade reconhecendo você em tudo que originalmente não reconhecia e então de novo não sei mais o nome das ruas.

sol em praias desertas

das várias leis que regem o universo (feitas por ninguém, válidas para todo mundo), gosto especialmente daquela que diz: quanto menos se quer, mais se tem.  muitas variações desse mote servem pra explicar a lógica dos relacionamentos de uma maneira geral, fazendo com que a gente se sinta confortável ao aceitar perdas e ganhos nesse sentido. por exemplo: só se dá valor quando se perde. é uma verdade tão explícita e tão óbvia que foi preciso transformá-la em ditado para que seja possível nos percebermos e aceitarmos em toda a nossa idiotice.

o sentido oposto dessa primeira lei, no entanto, é o que mais me interessa. que quanto menos desejo mais o universo conspira à meu favor, já sei (ele – o universo – gosta de brincar aqui no meu quintal também). o que é muito difícil saber é que também somos passíveis de sentir a aplicação dessa lei como receptores. vejamos: você, em sua magnífica paz de espírito e leveza diante dos relacionamentos, é jovem e feliz com seus vinte e um aninhos de idade. como diz marcelo rubens paiva, quer beijar todos, namorar todos, amar todos mas, no fundo, está num profundo romance com seu próprio eu.

eis que nessa placidez de sentimentos surge outro alguém (não nos interessa pintar o quadro: bonito, feio, pobre, rico, chato, muito chato) que se interessa pelo seu conjunto. esse alguém vem de mansinho, instala canga e guarda sol ao lado do seu remanso na praia e fica. pede água de coco, lê o jornal mas te olha com o canto do olho, esboça sorrisos e o sol se põe. investe pesado em um beijo, tenta te levar pra cama, fala que você é tudo que ele precisa. você, vinte e um anos de pura malícia (e solidão, profunda solidão que te corrói os nervos mas que não permite transparecer), diz pro alguém “não te quero mas pode ficar aí do meu lado na praia”.

esse alguém fica anos batendo ponto naquele posto pra te ver. não interessa sol, não interessa se a moda agora é o coqueirão do posto nove, se as pessoas nem frequentam mais a praia. ele é o alguém que permanece ali enquanto você flerta com surfistas, jogadores de futevôlei, leitores de jornal pseudo-intelectuais. tudo vai bem, tudo muito calmo até o dia em que você toma seu lugar na areia, espera o vento desalinhar os seus cabelos da maneira mais sexy possível, pede uma água de coco e surpresa: não há mais alguém do seu lado. você pensa que alguém está atrasado, que provavelmente está despetalando rosas vermelhas pra jogar aos seus pés quando chegar a hora. não. alguém não vem, você ainda não o quer mas se pergunta: terá alguém um outro alguém que não eu?

não interessa. a essa altura do campeonato você já está implacavelmente sujeito ao outro lado da moeda daquela lei “quanto menos, mais”. o ficante de guerra, o sexo garantido, a certeza do seu fim de noite (que, lembre-se bem, você nunca quis) um belo dia some e passa a chover torrencialmente na sua praia. o alguém por sua vez, coitado, terá agora seu primeiro momento de glória porque você, genuinamente, agora o deseja. se permite assumir que todos os surfistas, jogadores de futevôlei e leitores de  jornal pseudo-intelectuais não recolheram o lixo da praia e, pior, nunca mais voltaram. alguém, aquele seu alguém imperfeito que bebia coca-cola quente pra estar ao seu lado, agora pode comemorar.

quanto menos ele te deseja, mais você deseja. a vida como um todo, preenchida por essas leis ora antipáticas, ora divertidas, é uma coisa muito óbvia. tão óbvia que é preciso estar sujeito ao clichê descritivo das leis para compreende-la. agora sei que quanto menos esse alguém me liga, que proporcionalmente aos minutos que passo sem receber meio sinal da sua presença, enlouqueço. no revés da antipatia pela sombra que antes incomodava, agora você vive uma obsessão. esse alguém, mais cedo ou mais tarde, vai tomar conhecimento da nova condição da lei e vai saber que você o procura pelas ruas em que sabe que ele vai passar.

ele não passa. na rua e na sua vida; e agora você se pergunta onde está a lei óbvia que deveria ter alertado para o meteoro dentro da sua água de coco.

fotografia

hoje é um dia de silêncio. um silêncio branco e claro quase como a luz que invade meu quarto e desrespeita as janelas de vidro. gosto de dias asssim; são quando se pode ver as pequenas partículas de poeira gotejando e dançando lentamente sobre o ar parado em blocos. nos dias de sol, esses micro fragmentos de pele, de roupa, de pêlo, se espelham e se espraiam formando uma constelação de esporos. quando caem sob a pele, se estamos deitado no chão, de pernas cruzadas pro alto em frente à janela, perfuram e incomodam.

nos dias frios, raros dias frios em que fazem dezenove graus no rio de janeiro, todos esses pequenos corpos formam uma dança infinita de movimentos sem sincronia e além disso, me distraem. fazem com que meus olhos de baixo pra cima (vejo minhas pernas cruzadas pro alto apoiadas no parapeito da janela) ignorem o dia claro, de silêncio claro, lá fora enquanto eu, aqui dentro. todos os milímetros do horizonte lapidado que tenho desse ângulo deveriam, como eu queria, estar preenchidos de flocos brancos e suas impressões digitais.

quando eles somem do meu campo de visão translúcida, minha mão esquerda finalmente alcança a altura da cama e se eleva. e se deixa cair, pesando e assim inaugurando uma explosão de milhares de milhões de incontáveis novos pedacinhos de distanciamento. entre o eu de pernas cruzadas e a cor original da pele, hoje morta, que compõe atômicamente algum desses microorganismos flutuantes. hoje é um dia de silêncio branco e são essas certezas as que mais me apavoram. estou submersa de pontilhados infinitos de uma única cor, posso distinguir o comprimento e o ritmo de baile de cada um dos seus pedaços isoladamente.

ainda assim, não me abandona essa noção de conjunto, de conjunção rítmica e proporcional entre cada um dos corpos que ilustram minha paisagem. sei que o dia é branco porque sei que todos estes cacos de sobrevida, de alma, de luz, compõe um horizonte esplêndidamente claro, neutro e seguro como deveria ser mesmo que não houvesse nada flutuando no ar. procuro então respirar aquilo que é minimamente possível, com cuidado imenso de não sorver mais do ambiente do que seria possível sentir falta. os esporos dentro de mim não dançam porque minha completude é mais densa que o ar e quando se me penetram, decididamente escolhem a seiva ao vento e se instalam.

esses blocos brancos em mim, ao redor dos meus pulmões, coração e outros órgãos de menos valor calculável, são a soma de muitas outras tardes brancas que já quis viver. as quero, profundamente, embora saiba que possui-las por completo seria um outro desperdício de atividade fim do ser humano. simplesmente preciso vê-la, querer tê-la e não ter, numa receita simples de contemplação e serena aceitação. uma tragada mais profunda de ar e se romperia num fio vermelho toda a concentração necessária para que exista esse equilíbrio doido das partículas no ar.

um mínimo movimento das minhas pernas para baixo dessa posição e então meus olhos também seriam obrigados a novamente angularem-se; meus braços automaticamente ficariam grandes demais para o espaço do corpo em repouso; minha cabeça com reentrancias e saliencias desimportantes mas que, ao rés do solo, incomodam na hora que me deito. então sinto que preciso saber da tarde apenas branca e manter-me no silêncio, também branco, como passaporte de acesso ao espetáculo secreto dessa certeza.

de que as miniaturas de papel, pedaços de linha, fragmentos de nylon e algodão, são e estão milimétricamente dispersos no oceano do ar em perfeita disposição. giro meus dedos num movimento horário, balanço indicador e seu vizinho como se mexeriam duas pernas batendo na borda da piscina e, ainda assim, vou capturar, se capturar, em minhas mãos, apenas a transparência da brancura desejada. minhas pulsões elétricas, musculatura em clave organizando-se para captar o instantâneo dessa percepção, é inútil. hoje é um dia branco e nada devo à sua existência ou à essa escuridão, clara e certa, expressa em minha condição estática.

záz

o agora é tudo que vale. o agora é tudo que vale. não importa que no fundo eu não acredite; que você nem ninguém acredite. o que importa é o agora então preciso que você venha correndo para o lado de cá. o lado de cá é o meu lado, seu lado oposto. exato avesso das expectativas que tinha de acordar e ver aquele mesmo rosto impresso na sua cama. digo, contradizendo, que não possuímos o ontem e só o amanhã irá nos redimir. sei, quando cai a noite e não andei meio milímetro mais forte na sua direção, que o que importa é o agora.

o agora é o que vale e por isso você precisa vir correndo. ou eu é quem preciso ir correndo na sua direção? te dizer, sussurrar, gritar, em mil línguas, mil linguagens, de mil maneiras, delicadas, selvagens. o que vale para nós é o agora. o que vale para desatá-los, agora. seremos eu e você planando com o peso de escolhas mortas? não prefere sermos eu e você no chão cheio de flores brotando vivas? o que importa é o instante da flor viva; não ela por nascer, não a sua última pétala. cortar o dedo no espinho – esse sangue jorrando é puro agora e é isso que deveria nos importar.

te importa que eu me vá agora? não sei como você chegou, se instalou, qual foi a hora. queria remover minha perspectiva de você nesse primeiro dia, me isentar da sua estréia. não posso. o ontem não está mais sob minhas mãos. quero te olhar amanhã sob a minha cama, dizendo que me esperou, que me ama. mas não posso. você não vai poder. não tenho poder sobre o amanhã e te trazer até ele depende, exclusivamente, de agora. depende exclusivamente de você vir agora antes que eu vire amanhã e você tenha virado ontem. se preciso te deixar passar te peço pra que passe agora. o agora é tudo que vale. o agora é tudo que importa.

suas dúvidas, minhas promessas – são falsas coisas que quando egressas, não saberão o gosto do momento que se esgota. posso bater desesperadamente por dias e dias na sua porta. não interessa o segundo seguinte depois que você abrir, me receber na sua casa, no seu corpo, na sua alma generosa e purificada depois que o último fogo virou carvão. sua coisa toda pura e tão maravilhosa vai se encrispando com os dias. vejo sua superfície agora cada vez mais clara embora seus olhos estejam ligeiramente mais escuros cada vez que coloco os meus em contato. vejo você por eles e através. já fechei os olhos e já os abri e o que realmente importa é o segundo de agora que te cola na minha retina e se propaga, encrispando encrispando o seu corpo pra dentro do meu corpo.

prefiro te dizer que não te disse tudo isso mas o que vale, e agora? o que vale eu mentir se essas linhas já estavam planejadas há dias, há horas? estavam planejadas quando o antes ainda era agora e eu nem sonhava em te conhecer. quando cruzamos nossas linhas no elo do acaso e do destino – foi um agora tão imenso e tão bonito que adiei vinte e um anos até aceitar que você chegaria. o que vale é o agora. que em such a glimpse passará e te perderei. e sei que te perderei como perco cada dia um pouco mais cabelo, cada dia um pouco mais de altura. começamos o fim em todos os agoras. mas agora, te quero agora. aprender a ter você e combinar você em mim no micro milésimo de segundo antes de começarmos a descer ladeira abaixo.

um milhão de anos ladeira abaixo valem meio segundo do clarão (seus olhos nos meus).  o agora é tudo que vale.

papo reto

você se preocupa muito. se preocupa muito com o que já passou e com o que vem adiante. se preocupa muito e de uma maneira geral é justamente o que ocorre no presente aquilo que te escapa. mantem os seus olhos lindos sempre abertos pra coisas cuja compreensão já se esgotou – pelo tempo, pela falta, pelo caráter desnecessário – e justamente os fecha quando eu te falo coisas sem abrir a minha boca.

são coisas que eu estou dizendo e com as quais você – não sei – de fato não se preocupa. quero achar que os mínimos movimentos que faz quando passa os dedos no cabelo significam que você me entende. mas você se preocupa muito se as pessoas ao redor estão te depurando demais, te sacando demais, te decifrando demais. se fecha em todos os naipes e forja uma postura de despreocupação que não condiz com a sua psiquê meio histérica, meio submissa.

eu, por outro lado, me preocupo muito em ter paciência e isso, enquanto virtude, é uma cois amuito sábia. própria de alguém que já pendurou quadros na parede sem martelos pra bater o prego. iniciativa de um alguém como eu, errático, ansioso, meio histério meio submisso, que agora resolveu crer no tempo como santo remédio pra todos os males. essa minha paciência, enquanto defeito, me paraliza na hora em que eu deveria te dizer “vai à merda” por se preocupar com exatamente tudo aquilo que não importa mais.

longe de mim estar fazendo pouco do que você talvez sinta. na real, estou fazendo realmente muito pouco. estou cagando pra absolutamente todas as pessoas que trouxeram você até aqui e cagando ainda mais pra todas as que não quero que existam depois de mim, e de você. essa minha posição de cachorro latindo no portão desesperadamente até que o dono entenda “ei, tô com fome” – é enlouquecedora. você se preocupa com todos os cachorros vira-latas abandonados no eixo rio de janeiro/chuí e, me endoidecendo, não ouve “ei, tô com fome de você”. tô à beça.

você se preocupa muito com o que vai vir depois daqui e pra isso eu digo também – não sem um pouco de medo – “ó, tô cagando”. pros chororôs convencionais, pro estardalhaço de subjetividade que provavelmente comportaremos entre as paredes do quarto. não gosto de baratas e pessoas estranhas andando na rua de madrugada. fora isso, abro mão de uns trezentos e cinquenta medos de estimação que carrego desde o dia em que comecei a brincar com gente.

você aí, se preocupando com duas ou três coisas absolutamente desimportantes e o mundo desabando nos arredores da praça saens peña. me comporto feito uma pessoa tresloucada, falando e fazendo coisas que não tem aparente conexão alguma com a realidade mas, e daí? você aí se preocupando com a hora do brasil e a diferença de fuso entre os estados à toa. o telefone não vai tocar e se tocar, não vai cantar a música que você acha que precisa ouvir. não é, veja só, nem a música que você quer de fato ouvir. é a balada romântica habituè dos seus ouvidos; quase como aquele babaca que escuta só “wonderwall” porque tem preguiça(?) de chegar até o “slide away”.

babaquice. pura e irrestrita falta desssa coragem astronômica que você supõe que eu e os outros acreditamos que você tem. você se caga de medo de aceitar que propriamente já deixou pra trás tudo que já te deixou pra trás. essa é a verdade da qual eu não sou a dona e que, ainda assim, te ofereço de mão beijada como uma lanterninha pra estragar a lama do seu fake-breu emocional. breu porra nenhuma. você se preocupa é com o tamanho da beleza do dia que vai ser acordar e simplesmente “puft”, tiver ido à merda todo esse resto de história que literalmente agora é só história. se pergunta se vai conseguir suportar tanta felicidade mesmo estando sem o controle. porque sim, dessa vez as rédeas são minhas.

você se preocupa muito pra se disfarçar, pra camuflar seus olhos lindos e não deixar que as sinapses nervosas do seu cérebro leiam o que eu te digo quando você me olha. sugiro: olha de novo. e para de se preocupar. eu, zerada dos meus trezentos e cinquenta medos que tanto cultivei com carinho, sinceramente tô cagando pra tudo aquilo que não é você – agora.

blink

terminei hoje de ler ‘um romance russo’, do emmanuel carrère. assim que comecei a trabalhar na objetiva/alfaguara, não pude deixar de reparar na estante de livros que fica logo à entrada, um pouco escondida dentro da parede. naquele primeiro dia eram só alguns livros que eu gostaria de ter, mas livros, no geral. depois que comecei a precisar ir todos os dias, depois que meu olhar já um pouco acostumado passasse pela estante com um certo desinteresse – estava lá o tempo todo. ‘um romance russo’, de capa verde escura, com a marca do L característica da identidade da alfaguara.

os cabelos cacheados e ruivos da menina que estampam a capa. foi ali o primeiro livro que desejei verdadeiramente possuir. o livro que em primeiro lugar queria ter como presente por aquela nova carreira, aquela nova conquista. um dia – acho que chovia – ele desceu até as minhas mãos quase despencando sob o meu olhar do alto da terceira estante. foi comigo embora pelo ônibus, entrou na minha casa, dormiu comigo muitas noites e muitas noites me esperou estar pronta para recebê-lo. é assim o processo de amar alguém que não se amava antes. deixo-o entrar na minha vida num rompante.

abri o livro em uma tarde dias atrás, sentada do lado direito de uma cadeira de metrô enquanto ele andava para trás. e daí o que vai é como sempre vai um bom livro, que é quase como uma boa refeição completa. desde pequena aprendi que o melhor da festa quase sempre está em esperar por ela. não sei se essa minha mania de esperar pelas coisas é mesmo uma mania ou na verdade uma condição. isso aí, a palavra mesmo que eu queria era uma condição. estou condicionada a amar coisas que nunca jamais vou querer ter ou possuir. as possuo enquanto bem de consumo mas nunca querendo aceitar o dia de traze-las pra dentro de mim. assim deveriam ser as boas coisas da vida, nunca possíveis completamente, nunca bem vindas completamente.

uma vez que se recebe na casa, na sala, no quarto vazio de coração – o primeiro passo do fim. não sei se coisas desconexas, livros, pessoas, fatos corriqueiros ou não. no último domingo um grande amigo perdeu seu pai. no meio da caminhada ele então simplesmente disse sem avisar: estou indo. e foi. o balanço do ônibus no trajeto ipanema-copacabana naquela noite de segunda-feira me fez pensar do porque é tão dificil aceitar o que está interiorizado. a morte, tão simples, é uma caminhada linear que começa desde o dia do mês e do ano em que se lembra o seu aniversário. ele agora não tem mais seu pai. eu agora não tenho mais meus livros que li.

não é de longe uma comparação, jamais. temos eu e ele só a lembrança daquilo que foi o folhear da página, daquilo que foi o guardar o livro na bolsa e esperar a hora do almoço, uma paz no meio da rotina, para ler e se envenenar da permissão de amar a coisa lida.  sinto saudades das pessoas dos livros que habitaram minha cidade, qualquer cidade, enquanto avançava um dígito no topo da página. vou sempre sentir saudades das pessoas que se vão e me entristece porque sei que é necessário consumi-las. é necessário dividir o monte de papel encadernado ao meio, ler uma palavra no meio da enxurrada sem contexto só pra se sentir ali, sentir o cheirinho doce do pólen ainda não manchado de dedos – que se deixa, tão doce como veio, machar.

sem que eu me despedisse e pudesse dizer qualquer coisa, foi o pai do meu amigo. um dia também irão os meus amigos, pulando distraídos do quarto andar da minha estante. minha estante tão imóvel, tão segura – ternura e ninho de amor perfeito que construí de laca branca. um cofre de pessoas e livros, de pessoas dos livros e de fora deles, que não obstante permitem a marca dos meus dedos sobre a sua pele e pólen. também estou marcada. não tenho mais emmanuel carrère, não mais clarice lispector, não mais a pessoa que fui quando escrevi as coisas que escrevi. ainda tenho muitos livros, muitas folhas, muitas pessoas em branco: sou como todos as pessoas devem ser antes de uma festa começar – não quero ir mas estou indo.

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