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e que nem eu vou saber explicarblink
terminei hoje de ler ‘um romance russo’, do emmanuel carrère. assim que comecei a trabalhar na objetiva/alfaguara, não pude deixar de reparar na estante de livros que fica logo à entrada, um pouco escondida dentro da parede. naquele primeiro dia eram só alguns livros que eu gostaria de ter, mas livros, no geral. depois que comecei a precisar ir todos os dias, depois que meu olhar já um pouco acostumado passasse pela estante com um certo desinteresse – estava lá o tempo todo. ‘um romance russo’, de capa verde escura, com a marca do L característica da identidade da alfaguara.
os cabelos cacheados e ruivos da menina que estampam a capa. foi ali o primeiro livro que desejei verdadeiramente possuir. o livro que em primeiro lugar queria ter como presente por aquela nova carreira, aquela nova conquista. um dia – acho que chovia – ele desceu até as minhas mãos quase despencando sob o meu olhar do alto da terceira estante. foi comigo embora pelo ônibus, entrou na minha casa, dormiu comigo muitas noites e muitas noites me esperou estar pronta para recebê-lo. é assim o processo de amar alguém que não se amava antes. deixo-o entrar na minha vida num rompante.
abri o livro em uma tarde dias atrás, sentada do lado direito de uma cadeira de metrô enquanto ele andava para trás. e daí o que vai é como sempre vai um bom livro, que é quase como uma boa refeição completa. desde pequena aprendi que o melhor da festa quase sempre está em esperar por ela. não sei se essa minha mania de esperar pelas coisas é mesmo uma mania ou na verdade uma condição. isso aí, a palavra mesmo que eu queria era uma condição. estou condicionada a amar coisas que nunca jamais vou querer ter ou possuir. as possuo enquanto bem de consumo mas nunca querendo aceitar o dia de traze-las pra dentro de mim. assim deveriam ser as boas coisas da vida, nunca possíveis completamente, nunca bem vindas completamente.
uma vez que se recebe na casa, na sala, no quarto vazio de coração – o primeiro passo do fim. não sei se coisas desconexas, livros, pessoas, fatos corriqueiros ou não. no último domingo um grande amigo perdeu seu pai. no meio da caminhada ele então simplesmente disse sem avisar: estou indo. e foi. o balanço do ônibus no trajeto ipanema-copacabana naquela noite de segunda-feira me fez pensar do porque é tão dificil aceitar o que está interiorizado. a morte, tão simples, é uma caminhada linear que começa desde o dia do mês e do ano em que se lembra o seu aniversário. ele agora não tem mais seu pai. eu agora não tenho mais meus livros que li.
não é de longe uma comparação, jamais. temos eu e ele só a lembrança daquilo que foi o folhear da página, daquilo que foi o guardar o livro na bolsa e esperar a hora do almoço, uma paz no meio da rotina, para ler e se envenenar da permissão de amar a coisa lida. sinto saudades das pessoas dos livros que habitaram minha cidade, qualquer cidade, enquanto avançava um dígito no topo da página. vou sempre sentir saudades das pessoas que se vão e me entristece porque sei que é necessário consumi-las. é necessário dividir o monte de papel encadernado ao meio, ler uma palavra no meio da enxurrada sem contexto só pra se sentir ali, sentir o cheirinho doce do pólen ainda não manchado de dedos – que se deixa, tão doce como veio, machar.
sem que eu me despedisse e pudesse dizer qualquer coisa, foi o pai do meu amigo. um dia também irão os meus amigos, pulando distraídos do quarto andar da minha estante. minha estante tão imóvel, tão segura – ternura e ninho de amor perfeito que construí de laca branca. um cofre de pessoas e livros, de pessoas dos livros e de fora deles, que não obstante permitem a marca dos meus dedos sobre a sua pele e pólen. também estou marcada. não tenho mais emmanuel carrère, não mais clarice lispector, não mais a pessoa que fui quando escrevi as coisas que escrevi. ainda tenho muitos livros, muitas folhas, muitas pessoas em branco: sou como todos as pessoas devem ser antes de uma festa começar – não quero ir mas estou indo.
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você notou que eu estava com medo. achei que ia ficar sem ter o que dizer. sempre adiei começar a escrever esse depoimento porque sei que serão no plural e, ainda assim, não conseguirão refletir a necessidade real da expressão. um depoimento, no sentido comum da palavra, é um relato explicativo sobre qualquer tema, partindo do pressuposto que o depoente tenha participado e/ou observado ativamente o assunto que se dispõe a reproduzir. essa premissa ao mesmo tempo que me convida me repele: depoimentos em geral são constatações finitas e que não mais se modificarão. na delegacia ou para um documentário holandês sobre a pesca na costa brasileira, pouco importa. todas esses suportes comumente cristalizam aquela opinião no tempo e daí quase nunca passam. sou convidada e escrever tudo que sei e que nada sei sobre você, argumento do meu argumento, e na verdade sinto que em absoluto é preferível calar. sentidos referenciais mais profundos, acredito eu, muitas vezes se expressam no vazio. como se, por exemplo, o pintor desiste de preencher de cor toda a tela disponível.
ele está habilitado para a expressão, sabe que pode perfeitamente contar pros visitantes da galeria aquilo que quer contar. mas o silêncio infinito que se imprime e está comprimido necessariamente no espaço vazio (mesmo que milimetricamente entre dois pequenos pigmentos de tinta) é absolutamente equilibrado. o depoente então escolhe não falar aquilo que sabe porque é no silêncio que melhor se explicaria – se possível – até mesmo a palavra. sou constante e inquietantemente convidada a escrever o que penso e acredito das impressões que já depurei. penso às vezes que fazendo vou conseguir provar e costurar profundamente aquilo que sinto. tocar profundamente o inexprimível e reprimir sua incapacidade de se fazer tocar. os guardas na delegacia e os curadores da exposição querem que eu diga e eu insisto em não dizer o que poderia, que eu sei? que poderia. como um estímulo à obra de arte digo: não posso te produzir ainda porque não te quero terminar. sinto todos os dias o vapor dessa relação no claustro.
a verdadeira libertação estaria em nunca precisar de liberdade como fator externo. ainda assim tê-la em si de modo tão convicto, uma tatuagem num lugar que ninguém enxergaria, que não é preciso mais que ela exista enquanto referência. o que parece uma ode à preguiça ou à covardia, não é. bravura total de encarar os dedos em riste – ei, você não sabe, nunca vai saber, nunca vai mostrar que sabe – e ainda assim, saber. não precisamos mais de documentos e de nenhuma outra forma de armazenamento simbólico. em absoluto todos os pedaços da composição que venho preparando não conseguem se juntar e nisso está a sua beleza, em estado puríssimo. é por não poder te alcançar que te alcanço; é por não poder te compreender que já te assimilei. fica a minha imagem congelada no filme do documentarista holandês; o melhor que posso oferecer. ficam minhas sinceras certezas de que haverá outra coleção e isso agrada o pintor. digo pra ele que está tudo bem se ele não pintar, mas que aquela foi a melhor conversa que já tive na vida e que sei – o céu nunca mais vai ser o mesmo até que ele me mostre como ele pode ser.
o pino quando volta pra granada
na megazine dessa última terça o william bonner disse que a grande maioria dos estudantes de jornalismo começa com uma visão glamurizada da profissão. não que isso seja de todo uma mentira – na verdade, no fundo não é. mas se tenho direito de rebater alguma coisa que o bonner diz (tenho sim, afinal, existe glamour e existe profissionalismo) melhoraria sua aspa, acrescentando que saímos da graduação cada vez mais românticos.
a lógica da coisa seria nutrir uma deilusão completa. depois de lead e apuração, as terminologias mais exaustivamente repetidas são ‘mercado saturado’, ‘freelancer’, ‘profissional multifacetado’. coisas que somadas montam em primeira mão um panorama bem distante da ideia romântica do jornalismo folhetinesco. embora saiba que não é mais possível resgatar a apuração rodrigueana – quantas mulheres se jogam da janela por conta de uma traição? não mais, direi que de perto nem do salto caem mais por causa disso – e muito menos o humor assinado de um joão do rio – pra que serve hoje o morro do castelo além da ocupação do favela bairro? – deve haver por aí alguma emoção oculta nas linhas das laudas.
agora há pouco conversava com um amigo sobre um sequestro dramático encenado na tijuca, pela manhã. do alto de seu merecido sono, acorda com o celular tocando: é uma fonte (um amigo?) convocando a sua presença há poucas ruas dali, pro camarote de mais um espetáculo do nosso roteiro de mini-guerra civil. levanta o meu amigo, não veste a primeira roupa que encontra e, cigarro no bolso, sem caneta ou papel quaisquer, parte em retirada para o local. o desenrolar da trama não me interessa, entre mortos e feridos salvam-se aqueles que não se interessam com a chance de protagonizar as cenas.
e penso: pra que diabos foi ele até lá acompanhar um desenrolar clichê de um acontecimento carioca tão ou mais clichê do que feijoada na quadra da mangueira? havia tiro e sangue, nelson rodrigues. havia polícia por todo o lado, joão. na volta pra casa, nosso repórter sem anotação postou todos os fatos, ipsis literis, no twitter e, vale ressaltar, antes do RJTV! o bárbaro, bonner, é que não há glamour algum em sair de pijama pelas ruas da tijuca e presenciar a execução de um bandido que não deu a sorte de ser protagonista de documentário do bruno barreto.
não se vislumbra um contra-cheque gordo no final do mês por ter presenciado uma cena quase pitoresca, pouco estofada até mesmo pra um jornalzinho de bairro. o que há então, amigo bonner, com essas pessoas que não correm atrás da pauta mas que, por desejo silente do destino, são sugados para dentro dela? não sei, não sabemos a resposta. eu e meus amigos saíremos da universidade sem a mínima noção do que é a maquiagem que laqueia o suor diante das câmeras, sem o mínimo conhecimento do que são os carros de reportagem pra nos deixar em casa após oito ou nove horas de trabalho.
isso tanto não importa que não é o nosso pleito. depois de quatro anos estamos mais românticos do que nunca. comecinho de namoro, onde mesmo as violetas em vasinho de plástico são as mais lindas rosas holandesas. onde a menor nota no pé inferior direito do jornal é a manchete do estadão de domingo. a realidade, transformada um pouco pela evolução dos suportes e muito pelas mulheres que não querem mais chorar o chifre, ainda nos tolera enquanto primeiro degrau da cadeia alimentar da comunicação. enquanto se preparam pra nos engolir, coelinho no pasto, o mundo passa ao sabor da máquina. e quando nos engolem, coelinho no cesto, o mundo volta pro estado romântico em sua naturalidade.
estamos todos certos, bonner.
se fez carne
pra fazer uma boa crônica é preciso ver além das coisas simples do cotidiano. essa é só uma das receitas de um bolo que pode, a gosto do freguês, pode ser montado, batido e preparado de milhares de maneiras. oito ovos para três chícaras de farinha de trigo, seis ovos para quatro colheres de sopa de açúcar, nescau ou chocolate em pó pra calda. tanto faz como tanto fez. não que fazer crônica ou bolo sejam duas coisas que se possam fazer sem critério. mas, assim como qualquer pessoa pode aprender a fazer um bolo de chocolate e variar sua receita (uns com granulado, outros com confeti), na crônica também se pode falar sobre qualquer assunto, do jogo de ontem ao futuro da raça humana.
para fazer uma boa crônica nos moldes daquela crônica que não parece ser o que é, são necessárias muitas coisas não ter. como por exemplo um olhar calibrado pra ver coisas que virariam crônicas. isto é: pra fazer uma coisa inteligente eu não posso ser inteligente a ponto de captar o drama que há no copo de mate em cima da minha mesa. se eu sei que essas coisas rendem uma boa crônica então não posso fazê-la. ela tem que vir por instinto, quase exatamente como quando se acrescenta mais um ovo na receita do bolo e ao invés de bolo ele vira um brigadeirão. há todo um mistério indecifrável e que não pede compreensão nessa arte de dizer do gênero a que me proponho.
quando comecei esta crônica, por exemplo, sabia perfeitamente que não ia dizer o que estou dizendo. queria ter encontrado uma maneira sutil de embutir meus pensamentos sedosos num texto mais prático. por não poder fazer isso de uma forma que me satisfaça completamente, estou aqui reclamando da crônica num sentido quase metafísico. esvaziar o suporte e fazer crônica só por fazer – falar e falar sobre coisas que eu não sei se têm tanta importância – não sei se eu consigo.
martha medeiros disse outro dia que sabe que nunca vai fazer ficção porque não gosta de terceira pessoa. a martha sim, faz crônica muito bem até com pedaço de caco de vidro no chão da rua. devo acreditar que a martha não sabe, embora precise dizer que saiba, perfeitamente bem o alcance da coisa que ela faz. para fazer uma boa crônica é preciso não saber fazê-la. é preciso não enxergar suas palavras jorrando de dentro dos utensílios de cozinha, das pedras portuguesas e das pessoas que te convivem. é preciso não cagar regras como estou fazendo e não tentar estabelecer uma conversa fora de hora e sem importância com o leitor que se dispôs a te enfrentar. para fazer uma boa crônica não se deve usar a repetição do ‘para fazer uma boa crônica’ e investir doidinho em falar coisas que você não tem certeza.
escrever sobre coisas certas é uma coisa que deve ser feita sem certeza. assim os autores que ganham dinheiro com crônica devem fazer até porque duvido que veríssimo saiba tanto sobre tanto assunto. não acho que ele tenha tempo de ter aprendido tudo o que diz e então só diz pra ver se aprende depois de ler o que escreveu. basicamente como eu estou fazendo pra ver se melhoro o que faço daqui pra frente, de uma vez por todas.
matrioska
lançamos recentemente pela alfaguara o novo romance do japonês haruki murakami, ídolo da literatura pop contemporânea. após o anoitecer conta em paralelo a história de duas irmãs, mari e eri asai. a primeira levava uma vida frustrada no subúrbios de tóquio até decidir jogar tudo pro alto e se aventurar na megalópole. eri era uma famosa modelo internacional até que se deitou para dormir e nunca mais acordou.
como se dão os encontros e desencontros destes personagens na trama e no cenário, confesso: não sei. tenho o livro mas não tive tempo (ou não o tenho ainda, ou nunca terei). até que na leitura diária do clipping que recebo por e-mail, surgiu a resenha do joca reiners terron para a folha de são paulo. a avaliação cotou o livro como somente “bom”, mas o que me trouxe até aqui foi este pequeno trecho: ”murakami cria fábulas cujo tom remete ao daqueles melancólicos filmes franceses nos quais nada acontece. em seu caso, porém, essa ordem aparente é sempre quebrada pela irrupção do extraordinário no cotidiano”.
numa leitura rápida tinha entendido “pela irrupção do extraordinário cotidiano”. esquecendo de ler o pequeno conectivo “no”, mudei totalmente o sentido que o crítico havia dado à sua frase. enquanto a dele fala da explosão de pequenos milagres, a minha fala da compreensão de que o cotidiano é por completo uma coisa extraordinária. nesse meu ato falho, como se eu quisesse entender e reproduzir que há uma maneira de se alegrar com a rotina.
a minha frase, mesmo tendo excluído o probrezinho “no”, não nega a acepção da que lhe vinha antes. as fábulas de murakami são ambientadas no cenário da cultura pop, essa que eu, você e a britney spears vivemos, e que nos dá (“nos”, britney?) uma agonia tremenda porque remetem mesmo aqueles “melancólicos filmes franceses nos quais nada acontece”.
ótimo: cheguei no ponto onde queria chegar. primeiro esclarecimento necessário é de que isso, embora pareça, não é uma contradição. se eu digo que o cotidiano como um todo é sim extraordinário, como posso, linhas abaixo, dizer que nele há essa melancolia do nada-acontece? pois sim, segundo esclarecimento: acho que as coisas acontecem sim e muitas pessoas acham comigo. do jorge vercilo que cantou “todas [as coisas e pessoas] tornaram-se pontes pra que eu chegasse à você”; passando pelo último ganhador da mega-sena e chegando à clarice lispector, que questionava se durante a noite as cadeiras, a mesa e os objetos se moviam pela casa.
respondo: tudo que nos passa, embora não fique mínimo sinal de importância e de memória, é impulso para um movimento/ toda aposta na loteria pode um dia virar prêmio / e os objetos da casa se movem milimétricamente com o tempo (lembram das matrioskas?), bem como atingimos nossos 1,68m de maneira invisível ao longo da vida.
não quero com isso dizer que é preciso acreditar numa mecânica universal e silenciosa que nos trará tudo sozinha. ou numa conspiração de forças conjuradas capazes de mudar o destino (“destino”, britney?). quero dizer é que há beleza e propriedade em cada minuto de tédio e descontentamento com a televisão, com o salão de cabeleireiro, com os amigos e a vida como um todo. os dias são sim, muito melancólicos e não há murakami que me convença que há nos outdoors, nas promoções das casas bahia e no petit gateau de chocolate alguma resolução prática pros meus dramas.
em contrapartida sei, juro que sei!, que quando atendo o telefone ansiosa e era apenas telemarketing, havia algum propósito. que quando perco o ônibus depois de ter esperado 40 minutos, há alguma explicação. (tem que haver!) acredito que o cotidiano é extraordináriamente sábio e que se conduz com maestria e perfeição. é claro que não deixo de enviar meu currículo se preciso for, não esqueço de doar meu tempo se preciso for, não esqueço de lavar a louça (por que preciso é?).
só não deixo de esclarecer pra quem quer que seja, sempre que preciso – que não estou vivendo só por viver.
legal
costumo dizer que, mesmo se o direito fosse a última profissão do mundo, ainda assim não a escolheria. longe de ter a legislação social como coisa que abjeto, em último caso não me imagino carregando o vade mecum à tiracolo, sabendo em qual código procurar tal resposta ou ainda como interpretar uma jurisprudência quando necessário. estudo em uma universidade tradicionalmente formadora de advogados. a candido mendes, de onde sairei ogulhosa (e quem sabe ainda romântica demais) com meu diploma de jornalismo, é especialmente conhecida por ter formado grandes juristas brasileiros, dos bons e dos maus .
acabei de ler um livro interessantíssimo que, além de provar a interseção quase siamesa de jornalismo, sociologia e antropologia (sendo essas duas ciências que admiro e tenho profunda curiosidade), toca em um tema mais importante do que a minha indiferença ao direito: censura. a mulher do próximo, do aclamado escritor/jornalista gay talese tem um subtítulo que elimina maiores explicações: uma crônica da permissividade americana antes da era da aids. a intenção de talese ao dedicar-se compulsivo aos nove anos de execução do projeto, era radiografar o espírito de libertação que atingiu os estados unidos à partir da década de 30. dentre as implicações mais relevantes, sem que falemos sobre a moda, a cultura e a contracultura, o panorama político e outros aspectos sociais em geral, estaria uma mudança significativa no perfil legislativo da américa.
narrando o levante de centenas de editores de revistas pornográficas e o crescimento equivalente desse mercado e de seu público, o livro de talese faz um paralelo com o desejo de repressão. esse por sua vez é representado em primeira instância pelo estado, cujo papel de censor é inerente e secular ferramenta de cabresto para manutenção do poder. em segunda e não menos relevante instância, há a censura feita pelo próprio público consumidor desse material. deixando-me explicar: uma sociedade puritana que aceitara com silêncio bovino o treinamento ascético da igreja, seus valores e conjecturas morais, valendo-se desse serviço como molde de comportamento. essa é a mesma sociedade que por vias excusas (atrás dos balcões das mercearias, por dentro de jornais enroladosou mesmo por correspondência) há muito desejava e agora consumia ávidamente material pornográfico.
os mesmos compradores de manuais eróticos e romances lascivos eram os homens de gravata e pasta – os famosos cidadãos médios – que manejavam a máquina social. a censura imposta por esse estado de latência do pecado é muito mais opressora do que a lei em si. toda essa preeleção à parte, trazendo à tona meu desgosto pelo direito e algumas palavras ouvidas nas aulas de ética, nada mais inciso e punitivo do que a moral. muito mais paralisante e devastador um grito histérico de consciência (ou doutrinação) do que qualquer fobia de tribunal. basta nos basearmos na seguinte premissa: um cidadão comum, especialmente no caso do brasileiro considerado médio, não comete um crime por medo da pena ou por incapacidade de ferir o mecanismo de auto-censura? contando com o ovo dentro da galinha, de que a lei que mais me protege é a da impunidade, não mato, não compactuo com assalto a bancos, não trafico nada ilegal, não atento ao pudor, não fraudo o imposto de renda.
não tiro a roupa no meio da rua quando me dá calor ao meio dia de uma quinta-feira; não vou extorquir à mão armada donos de banca de jornal para que alimentem meu celular pré-pago; não vou falsificar meus documentos pra entrar num avião pra paris; não vou copiar a pulseira vip pra entrar em um camarote; não escondo na bolsa as roupas que gostei em uma loja e que não posso pagar; não violo o direito à privacidade das pessoas invandindo seus computadores com programas espiões; não agrido fisicamente as pessoas que me tiram do sério. na esfera dos crimes menores, não digo as verdades que preciso dizer; não aceito as verdades que já me disseram; não me amotino contra uma vida cada vez mais rasa, de gente rasa, de causas rasas. não me desapego da biologia confortável de ouvir dentro de mim “as coisas são como são então não faça isso, não faça aquilo, não faça nada”.
finalizando minha história com o gay talese, a grande participação do governo americano na história é como protagonista de um papel socialmente inválido. de quem insiste em mascarar o desmantelamento da face velha e decrépita de uma comunidade para manter intactos costumes que alimentam o padrão homogêneo de comportamento. à medida que os norte-americanos frequentavam cada vez mais as casas de massagem e liam cada vez mais a playboy, a suprema corte foi esmaecendo em seus pareceres e abrindo espaço para a construção de uma nova conjuntura moral. e então o país outrora puritano e conservador abriu suas portas pras coelinhas, pros canais de filmes adultos, pra liberdade plena de divulgação desses costumes.
sabendo do brasil, sabendo nossas leis de longe, sabendo a cor do mar que cerca a ilha que cada homem é, não quero esperar que as leis federais – e em todas as outras esferas de regência - desapareçam para que seja legal dizer que não te amo mais.
firma reconhecida
minha mãe sempre me disse que não participou de alguns vícios ao longo da vida pelo significado do vício em si. não preciso explicar o léxico mas, num sentido mais abrangente, vício é uma necessidade urgente. ‘eu nunca usei drogas porque sabia que, se tanta gente usa, é porque deve dar algum prazer’, diz minha mãe. conscientemente a escolha dela foi abdicar dessa possibilidade e manter-se longe de coisas que julgava arriscadas. sem saber, ao me ensinar revelou uma coisa maior e mais importante: da natureza punitiva dos prazeres.
anuncio esse fato (sem acreditar que é um discurso universal) como uma realidade inescapável. absolutamente tudo que traz prazer também exige uma recompensa. dependendo da disposição dos astros, do nosso estado de espírito, da quantidade de grãos de areia levados pelo mar nesse segundo, coisas diferentes nos serão tiradas a cada instante real de alegria, gozo, sorriso, contemplação. em certos casos – e para muitas pessoas, o mais brando deles – a exigência mínima é a consciência. de súbito, perder o controle sob aquela vozinha que fala pelos corredores dentro da nossa cabeça. parece pouco mas é um preço. assustador no somar das contas porque não pára por aí: sempre há mais.
prazer é uma agiotagem. o beijo que você recebe sem culpa no escuro da boate é da mesma cor que os seus olhos borrados e carentes terão na manhã de sol do dia seguinte. o biscoito de chocolate ‘ah, mas é só um’ tem a exata proporção dos minutos de lamentação diante do espelho ou de corrida na praia. a ligação recebida precede milimétricamente todos os segundos de desespero até o telefone tocar de novo (com aquele exato número).
quando comecei a substituir desejos e expectativas por pessoas de carne e osso, fui apresentada à esse vil esquema de troca. não há alternativa melhor, todas as casas do ramo te cobram o mesmo valor em juros e todas as reclamações só farão pesar mais a sacola que você precisa carregar. dentro estão milhares de momentos esparsos e que não se unem – são imãs?-, prontos e esperando para acontecer você não sabe quando. essa natureza desprogramada dos acontecimentos é talvez, justificando o injustificável, quem nos tire a chance de calcular o preço de uma alegria qualquer.
vejo as formiguinhas andando pelo meio fio de manhã quando saio de casa – feliz. vejo uma criança que não sabe o quanto é linda – feliz. vejo que posso quando quero fingir esquecer – feliz. com a certeza de que todas essas coisas voltarão com seu determinado valor à epoca, torço para que consiga eliminar no tempo certo todas as minhas dívidas. que são muitas e das quais não me arrependo, devo não nego e pago porque preciso ter crédito novamente.
isso me faz encarar a vontade de pular da ponte como uma certeza boa. toda vez que eu penso que o mundo vai explodir de dentro pra fora a começar por mim, uma certeza maravilhosa: a cada novo dia de sofrimento, uma nova possibilidade de ser feliz de novo. alimentar esse jogo de empurra é uma prática inerente e totalmente fora do nosso controle. sempre digo ‘meninas, façam tudo que quiserem mas sempre tenham em mente: a vida volta de mãos vazias até a nossa porta’. pra continuar alimentando essa velocidade gostosa que é andar de bicicleta no aterro; pra continuar te dando a pele e os nervos pra sentir a língua descendo pelo pescoço, pra continuar te dizendo que tudo isso que você tem medo vai passar – a vida exige que você se comprometa.
marina, por favor me entenda
olha só: eu não sei mais escrever. não sei mais chegar aqui no papel e dizer as coisas que estou pensando de uma maneira minimamente crível. tenho nesse exato momento dois bons ganchos pra começar o texto mas, em cada tentativa, apago tudo e volto à estaca zero. pensando bem, esse desabafo é uma maneira de enrolar as linhas e tê-las ampliadas, na esperança de que talvez o movimento dos dedos pelo teclado – ou ainda dos meus olhos vendo as letras descendo escada a baixo – seja capaz de me recuperar a dignidade como ser humano que escreve. que precisa escrever.
é isso. vou me acalmar. sei que é preciso escrever e essa é uma certeza totalmente inabalável dentro do meu coração. embora antes acreditasse que as palavras poderiam me redimir da miséria espiritual que acomete todo escritor, agora acho que são elas mesmo que me levarão de volta à porta do inferno. escrever na verdade é um grandissíssimo inferno, representado irônicamente pela figura da cruz que se carrega ao descobrir o que os leitores chamam de dom.
é uma coisa que se precisa dominar e pra isso é preciso um tanto de sangue frio e coragem. essa última virtude como única ferramanta capaz de burlar a consciência, essa que diz “ei rapaz, não mexe aí dentro porque é perigoso”. ao que se ouve a resposta sem som e sem palavra, com um som de mão martelando tec tec as pedrinhas que bloqueiam a porta da frente. na parte de dentro há um vasto material em estado bruto que, analisado fria e simplesmente, não tem valor assim tão superior às lágrimas de qualquer engenheiro ou advogado.
a diferença, e é aí onde se impõem tais requisitos básicos, é que todo esse material não será depurado, tratado, homogeneizado, filtrado. não será integralmente selecionado, compreendido, analisado e estudado, colocado em rótulo. não serão remetidas todas as suas formatações em conteúdos para venda porque, sine die, todo escritor é um péssimo profissional de marketing. cabisbaixo, um pouco sem graça e com constante sensação de inadequação, vive de escrever e apagar linhas – pingue e pongue -. de fazer bolinhas de papel pra ver se inspira melhor; de procurar arquivos na leixeira do computador e ver se ainda dão pé; de salvar milhares de anotações que juntas ou separadas, não fazem nenhum sentido exterior.
essa interiorização de aceitar a ausência de palavra é onde agora eu me encontro. precisando compreender todos os dias quando acordo que: hoje não vou escrever, que hoje vou querer escrever mas não vou e não posso escrever. que ainda que hoje ou amanhã eu tente escrever, não vou conseguir escrever o que diabos eu quero escrever. escreverescreverescrever um milhão de vzes um verbo que, escrito, ainda assim não materializa nenhuma carne pra estofar minhas vicissitudes.
descubro então agora, que além da vida e para dentro da expressão que dizem que é meu “dom”, preciso aprender a manejar outras ferramentas. aparentemente mais dócil, embora não menos arriscada, a paciência se avantaja na minha frente como único método moderno capaz de vencer esse oco, marasmo, coisa seca, que agora é o escrever. como virtude que me tranquiliza e justificativa que me inquieta, a paciência é minha forma de entender que mesmo não escrevendo, estou escrevendo.
pra isso conto com a memória, com o backup de frases soltas em ocasiões mais soltas ainda, com a boa vontade do meu senso de narrativa. pesquiso por aí a idade com a qual meus ídolos escreveram seus romances de estréia, com que idade compilaram sua primeira antologia poética, e então preciso pedir ao estoque da glândula que me secreta: paciência. uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, pelo sim pelo não, apresso-me para o próximo ponto que será o final literalmente, antes que o ímpeto me apague tudo até aqui.
respaldo
acho que minhas reflexões de metrô são o que, ultimamente, melhor refletem o que é pensar nos dias que correm. as pessoas no eterno massacre diário que acontece, no meu caso, do lgo. do machado até o estácio, me deixam numa posição ambígua de profundo ódio e compaixão. sinto pavor de respirar aquele mesmo ar cansado de todo um dia de trabalho se encerrando às 19h; ao passo que sinto enorme curiosidade pelas revelações silenciosas que poderiam me fazer cada um daqueles rostos.
calhou da mulher de blusa roxa, mais baixinha do que eu e segurando como podia no mastro de ferro da parte traseira do vagão, me fizesse lembrar da morte do michael jackson. não que eu esteja surtando a ponto de lembrar que o michael jackson morreu em tudo que olho e ouço. aconteceu de questionar sobre como a realidade do mundo realmente pode afetar o fato de que todos nós, encerrando o dia, estaríamos voltando amarrotados naquele vagão que, graças a deus, estava refrigerado. a expressão despreocupada da mulher de roxo então me fez pensar: ‘vai que ela também tá pensando na morte do mj e dizendo <o que é que eu posso fazer?>?’
se tudo lá fora estivesse inundando, com uma catastrófica chuva dessas que vez em quando caem no rio, aí sim o mundo ficaria completo. as pessoas na plataforma olhariam estressadas para o relógio sem saber se vão ou se ficam, se entram ou se esperam a próxima composição. o alambrado que dá suporte à entrada das estação do lgo do machado estaria abarrotado de gente. gente essa que não entraria no metrô mas que, pra não se molhar, ficaria ali por horas esperando a vida passar. passando, enquanto morre o michael jackson, enquanto morrem outras pessoas que não sabiam tão bem dançar, esperam ali outras pessoas com pressa pelo simples medo daquilo que não é nada além de água.
loucura. hoje nem choveu efetivamente no rio de janeiro mas penso no que de verdade no move e o que de verdade é assimilado coletivamente como um valor. não que eu pudesse supor que todas as pessoas do rio ou do mundo parariam seu dia de trabalho pra chorar a morte de alguém, ou de alguns, como os sem resgate do AF 447. não que eu esperasse que as pessoas conversassem sobre isso ou outros temas no metrô, senão aqueles de costume que pra mim não significam nada além de um bater de bocas abafado pelo som do meu ipod.
o que me preocupa é saber eu, unicamente, também sou esse coletivo e participo de suas decisões automáticas mesmo sem me dar conta. queria poder um luxo de chorar dias quanto fossem necessários a morte das crianças na áfrica, a dor dos flagelados no afeganistão e no oriente médio, a mutilação concordada das mulheres em regiões tribais ao redor do mundo. como pino da engrenagem nada posso fazer senão manter-me agarrada ao movimento de não me molhar com a chuva, não gripar por ter me molhado e não faltar aos compromissos que me cabem por motivos tão bobos.
as outras pessoas ao longo da estação de metrô – e de todas as outras plataformas de transporte no mundo inteiro – nada em conjunto podem fazer diante desses sofrimentos. sozinhas, como eu me sinto em solidariedade a alguns outros poucos pensadores e sensíveis, podem talvez fazer algo expressivamente pequeno e pioneiro. talvez olhar alguém correndo de mochila e roupa de trabalho pela rua, tomando chuva na corrida não por azar mas por querer, fosse uma situação assim. imagina só: o estudande de 28 anos, blusa social que a mãe passou no dia anterior, de mochila, correndo feliz pela rua do catete sem se preocupar em molhar o telefone celular.
se eu tivesse visto quereria correr atrás dele! que corressemos todos atrás dele até o metrô esvaziar. não nos engavetariamos uns nos outros à fim de poupar 30 minutos na viagem; não teriamos pena de nós mesmos por não podermos ter nada além de pena pelos outros. a felicidade da massa que chora impotente a morte e as desgraças em geral, não está na consciência coletiva. não está no movimento político, social e de luta pelos interesses da comunidade. nada disso existe e tem valor diante da invalidez de não lutarmos contra as nossas próprias angústias. trezentos bilhões de gerações de pessoas no mundo morrerão sem redimir um único segundo pelo qual você se lamentou não ter molhado na chuva que caiu lá fora. enquanto você esperava o metrô chegar.
da margarina, da carolina, da gasolina
essas são recomendações anotadas na minha cabeça;
hoje vi uma uma criancinha linda sentada no colo da mãe enquanto voltava pra casa de metrô; o pai fez carinho no nariz dela e ela abriu um sorriso que deixou aparentes suas covinhas. usava um rabinho de cavalo preso pro lado esquerdo e uma sapatilha cor de rosa com flores.
ontem no corredor de uma galeria uma outra menininha, de calça jeans vermelha e blusa de florzinha, andava desengonçada. a mãe vinha atrás comendo um saquinho de pipoca.
hoje vi uma família enorme tirando foto posada na varanda de uma casa antiga aqui na tijuca. a casa antes tinha aspecto de abandonada e pensei que era mesmo. até que colocaram aqueles arames farpados enormes em cima das grades e hoje as luzes estavam acesas com essa festa.
hoje no caminho de casa ouvi alicia keys andando pela minha rua até chegar em casa. tem uns pontos em que a iluminação é fraca e eu fico olhando toda hora pra trás pra ver se tem alguem me seguindo. mas eu não tenho medo da minha rua. gosto de vir cantando alto quando está tarde e andar fora da calçada. fico olhando os postes e o portão do colégio militar ao fundo. os carros parados parecem sempre os mesmos mas eu acho que nunca são.
quase chegando no meu prédio tem um sr. que vende churrasquinho. no prédio vizinho tem o aldinho e a nina, um casal de gatos que vive pra cima e pra baixo. ela tem pelos longos e é rabugene. meu porteiro, seu josé, disse que é preu não fazer carinho nela porque ela já mordeu algumas pessoas. mas o aldinho, o macho de pelo curto, é gente boa toda vida. eu sempre chamo ele pelo nome e ele atende. sai de onde está (às vezes na portaria, às vezes embaixo de algum carro cujo motor esteja quentinho) e fica passeando entre as minhas pernas pra que eu faça carinho.
quando entro no prédio muito cansada e o seu josé não está mais, gosto de ficar parada no vão principal. bate um vento bom e às vezes dou a sorte de escutar sting na rádio justo nesse momento. fico olhando pra cima e as estrelas no meio ficam menos brilhantes por causa das luzes dos quartos acesas. é um bom lugar pra se pensar sobre a vida, pena que não tem um banquinho e que eu fique com medo das pessoas passarem e acharem que eu estou ficando maluca. ou que eu sou maluca.
há muito tempo que eu não ia ao cinema e hoje por acaso eu fui. a gente entra no cinema pensando em uma coisa e é legal porque naquele tempo a gente não pensa em nada. a sala escura parece que consegue desligar os pensamentos. depois que se sai ainda demora um tempo até que eles voltem.
cheguei em casa meio enjoada e não quis comer o strogonoff do jantar. minha mãe fez torradas e me trouxe com manteiga e requeijão. trouxe também um copo de guaraná e eu fiz a segunda refeição do meu dia ouvindo música e tentanto digitar sem sujar o teclado.
agora estou sentindo frio nas pernas embora não esteja mesmo frio. preciso pentear o cabelo antes de dormir e também tentar pensar em uma roupa pra vestir e não demorar mil horas e me atrasar amanhã cedo. não sei se levo uma mochila já com tudo que preciso ou se vou e depois volto em casa. voltar dá trabalho mas odeio andar de mochila o dia todo.
preciso decidir o que ler. preciso de tempo pra ler o que eu decidi. preciso ler coisas que não quero e quero ler coisas que preciso. posso colocar o livro na bolsa mas ele faz peso então me dá preguiça e eu também odeio ler em pedaços e em movimento. mas não tenho uma cadeira confortável no meu quarto e nem sossego de pessoas que não páram de abrir e fechar a minha porta que já é barulhenta.
importa dizer que eu não me deixo à vontade pra não te querer mais.