menos eu

acordei o teu corpo dentro do meu e me sinto tão sozinha ainda. o sexo agora me esvazia, pede de mim uma pureza de delicadeza que eu não sei mais onde encontrar. o que deveriam ser ritos de passagem e celebrações das minhas próprias escolhas, tornaram-se música que eu não sei a letra. só me deixo levar. como nós dois dançamos eu não vou mais saber dançar. a solução que seria procurar o prazer em outras artes não justifica a perda de um dos meus sentidos. apenas te ver no fundo dos olhos dos outros, esquecer o som da sua voz, ver o teu cheiro repetido num perfume de mesmo rótulo usado por outro alguém. arrumaram um jeito – o mundo sempre tão capaz – de reproduzir as tuas sensações em experiências diferentes. nada é exclusivo.

se agora o teu corpo acorda dentro de outra mulher, a culpa é minha. muito embora teu coração já estivesse exposto à flor da pele mesmo antes de eu chegar, a culpa é minha. agora a criança que toca, ponta dos dedos, língua no teu mamilo, esse coração, sequer vai saber que eu estive aí ou como é que ele aprendeu a bater. o sal do suor e as suas lágrimas, uma chuva de carros correndo em alta velocidade, vai lavando as marcas que deixei. deveria ter cravado mais as unhas, misturado o teu sangue no meu, ter mais a tua mão na minha boca a me pedir silêncio para o nosso amor em braile. parei de ler desde quando você foi embora.

nessa manhã de domingo eu acordei tendo perdido a cor branca nas manhãs. é um dia novo no céu desse ano novo. não sei bem por que, mas as nuvens continuam desenhando padrões que não consigo interpretar sem ver. com o antebraço sobre os olhos não quero que me vejam. a mulher que me tornou a ex-mulher dos teus sonhos, essa mulher também sou eu e acho que acordo vazia porque não posso abrir os olhos sem mim. talvez eu acorde vazia porque não posso encher a vida de mim sem verdadeiramente estar aqui. de presente, ainda não sei se me faz mais feliz ser responsável pelo passado ou inocente pelo futuro. 

o meu corpo sem o teu balanço é só perda de tempo. é uma casa cheia de tudo e sem felicidade, de pessoas bêbadas e cansadas que se entregam por burocracia. porque é preciso fazer amor antes que tudo morra, antes que não dê mais tempo. e porque é preciso fazer amor antes que tudo morra, que não dê mais tempo, eu durmo nos teus braços todas as noites. essa coisa que pesa e te parece uma indiferença, na verdade é minha grande arma. é o que disfarça e mascara a minha alma enquanto ela vaga pra fora do corpo e vai até a tua cama. eu durmo vazia e acordo em outro dia que é ainda o mesmo. onde o teu amor era o suco de laranja, a música em repeat que ficava tocando baixinho durante toda a madrugada. era tudo muito difícil porque eu estava cheia de mim. é muito mais difícil agora que estou vazia de você.

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(sem assunto)

pode um coração já tão partido, partir-se ainda mais. porque do pó viemos e para ele retornaremos.

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brasa

marcas de cigarro em minhas mão trazem o cheiro do incenso. sândalo e algum outro almíscar, viajante da china até aqui, agora perfumam as coisas que toco. as guimbas e o pó finíssimo misturam-se no parapeito da janela e o que o vento leva me faz agradecer por adoçar a casa com o aroma de duas coisas que não sou. as estrelas do oriente à céu aberto, o mar de estrelas incomensuráveis que meus dedos tocam espalhando a fumaça de um trago. acendo incensos há pouquíssimo tempo – só agora percebi que eles não incomodam quem passa (o perfume fica nas mãos de quem oferece); há muito mais fumo eventuais cigarros. vacilante, sempre fora de casa. meu monóxido particular perdido entre o câncer dos ônibus e da decomposição do lixo urbano. o meu medo da morte é o mesmo mas menor que a vergonha de me envenenar publicamente.

as marcas, no entanto, continuam. os elementos da água em sua claridade de limpeza que me perdoem, mas é no fogo que se une a carne ao espírito. no meu colo, nos cantos dos dedos, na coxa esquerda. esses pontos escuros na minha pele guardam alguma beleza: são estrelas cadentes. continuam brilhando mesmo mortas sobre a pele morta sobre a pessoa morta sobre a morte dos cigarros que há muito já se decompõem, lixo urbano, enquanto acendo outros e caminho. 

os incensos guardam a mesma natureza de fogo embora queimem de dentro pra fora. desde criança me inquieta o mistério do bastão de perfume guardar a chama sem que eu possa vê-la. as cinzas já existem antes de cair? o que fazer com os pedacinhos finos de madeira que se acumulam, multicoloridos, no canto onde bate o sol da manhã? sempre desejei uma casa clara, luz entrando em todas as horas de luz de um dia, poucos móveis, muitos quadros, o barulho do mar uma linha finíssima de óleo sobre a liquidez das buzinas. aquela sou eu, costas nuas, plano aberto, fumando e chorando na sacada. você seria o amor da minha vida, seu cabelo bagunçado, imperfeições no seu sorriso e posso e já te reconheço no que parece um esboço muito bom de nós.

comecei a decantar, flores e substâncias tóxicas, porque estou acesa de dentro pra fora. pedra contra pedra, repetimos as mesmas palavras, pensamos coisas ao mesmo tempo até que uma gota de luz começa a queimar. queimam na sua casa também, as sobras do mundo dos outros, do lixo dos outros. acende um cigarro na sua varanda e chora sob um céu aberto de estrelas pra você, distante dois túneis de mim. o perfume de passado e de futuro que procuro simular ao meu redor quer trazer o seu corpo, suas marcas, pra encontrar o meu próprio corpo, encobrir as minhas marcas. cinzas batidas se acumulam no fundo do copo. quantos mais copos até esse refugo exalar.

por isso disperso os detritos no vento e o vento sopra de volta essa força em mim. as partículas acesas são as marcas de cigarro em minhas mãos; as apagadas, são a mesma marca de cigarro em suas mãos porque fizemos as mesmas escolhas. você descobrindo o meu gosto. e por medo de me revelar demais antes da tua língua me encostar, estou fumando muito, acendendo mais incensos. quem sabe a fumaça mascara não a mulher que alguém perdeu mas a mulher que me tornei apesar de. fumo e acendo pétalas na noite para afastar e atrair o que livre, não me pertence e o que, escravo, traz em si as mesmas marcas.

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190 mil veículos por dia

que burrice é não acreditar que somos túneis e que se nos atravessam as balas, porque não nos atravessariam as pessoas. um dia um homem não morreu porque uma medalhinha de alguma nossa senhora no bolso da camisa se atreveu a segurar o tiro. o peito se abriu pra entrar a luz de afogamento que antecede o fim e ele a viu. foi essa luz que coloriu o céu no verão de 2001, em um cidade subdesenvolvida no litoral do rio de janeiro. aquele mar no fim da praia era feito dessas cores que também estavam nas flores no dia em que finalmente ele morreu. porque as coisas fatalmente morrem envolvidas em cores de invisível velocidade. pintadas nas paredes do túnel, estamos correndo demais para chegar onde essa beleza não está.

tudo vai passar por nós e nos atravessar e nos perfurando, dessa escavação o resultado é vazio. estamos cheios dos espaços vazios dos outros. essa certeza é a fonte de uma mansa paz que me faz saber que eu sou através do que não tenho mais. os fantasmas chiando na televisão se comunicam com o meu passado uma vez ou outra, sorriem pras coisas que eu não esqueci. porque eu sou muito mais o que já fui do que gostaria de ser. porque me encontro muito mais onde já estive do que onde gostaria de ir. no paradoxo do túnel, de ser constante através da passagem, sinto o cheiro do teu amor morto quase como o das flores nas coroas, vivas. 

que besteira achar que construimos qualquer coisa além de túneis. que o que faço vai além de querer passar por você e virar sua passageira. do lado direito do rebouças, correndo num táxi pela madrugada, eu aprendi que nem toda a terra do planeta pode destruir um espaço entre duas saídas. que nem toda a terra do mundo vai trazer de volta o que já está passado e que nunca poderia continuar existindo senão nessa conjugação. túneis são feitos de mágica, são feitos da matéria-prima das ondas, da astronomia da queda de uma estrela, da imensidão dos grãos e partículas viajando pelo ar. a vida é mais simples para quem não sobe morros. 

a música parou por dois minutos. foi tempo suficiente para perder aquela frase, meu amor, que dizia do pra sempre das coisas e suas pontes indestrutíveis. o rádio voltou do outro lado. mas isso não é uma ponte, cuja arte se propõe a amestrar espaços sem nada deles tomar para si. nada se perde nelas e com elas, muito pelo contrário, têm-se a oportunidade de trazer aço para o vazio. os túneis domam leões e trazem vazio para o espaço. abri-lo e sê-lo é destruir a natureza para abreviá-la e nessa fúria, no desejo, descobrir-se no escuro à milhas e milhas distante do mar. e você que correu comigo para vê-lo, chegou ao litoral, em 2011, sem mim.

é burrice acreditar que o vento soprando no teu rosto não sabe meu nome. esse vento pode não ser eu mas o som que ele faz ao atravessar teu corpo só se propaga no eco do buraco que deixei. do outro lado de um outro túnel, vamos passar pela terra que saiu de nós e nunca vai

passar.

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mimada

volta aqui. traz outro bolo e a gente pode fingir que é de novo o meu aniversário. dessa vez eu vou pedir, quando assoprar a vela, pra que o meu amor por você se torne real. pra que eu te entregue as cartas que não escrevi e para que essas palavras sim, signifiquem alguma coisa verdadeira. como é preciso tomar pelas mãos as crianças e guiá-las, das mais simples às necessidades mais complexas. crianças não veem fantasmas mas agora é o teu que me ensina a não chorar quando escovar os dentes, a ter fome quando me apresentarem o prato de comida, a não calar o que penso por medo do que meus pais possam, quem sabe, pensar. será sempre preciso insistir em uma educação mais rígida do que os meus instintos – de fuga, de entrega, de resignação -, como num cansativo pique-pega até o fim do dia. sem ar, você me diz que não era para ter corrido tanto e que não importa onde me escondesse, você já sabia onde me achar.

volta aqui e me encontra. no mesmo lugar, com os mesmos vícios de alguém não doutrinado. crianças são como cavalos e bicicletas: uma vez ensinados nunca mais esquecidos e sempre obedecendo as leis da força dominante. um bom cavalo se manterá de pé quando a montaria desabar e não vai pisá-lo quando for ao chão. uma boa bicicleta não soltará as raias da roda e rasgará seu joelho (porque ele já estará sangrando). entre os castigos aplicados mais eficazes estão o descaso: quando você não parte o pão, não me alimento; quando você não acende uma luz eu vejo coisas no escuro do quarto; a indiferença: quando você não aplaude meus rabiscos e seus significados, quando não está na plateia dos meus teatros; e o perdão: uma vez perdoado o primeiro pecado ela sempre pecará. e sem a escolástica embutida na dor não haverá pesadelo que sustente o respeito necessário à uma relação de fidelidade. a sua mão que me afaga me bate e é o mesmo gesto de amor.

volta aqui e me obriga a levantar do chão, a desfilar a vergonha na frente dos outros e me obriga a não ceder ao primeiro sorriso de piedade. nada de bom que vier da misericórdia alheia contribuirá para o meu sucesso. e o que é mesmo o sucesso senão retornar para casa e dormir e acordar novamente depois dos fracassos? sucesso, me lembra você, é ter uma casa para onde retornar. se você vai embora eu não tenho nada na noite, eu não tenho força pro dia ou quem ajuste o meu despertador e me empurre pra fora da cama porque a vida não vai parar pra me esperar ficar pronta. invariavelmente as aulas começam às sete e a prova total da falta de compaixão exterior está no fato de que nenhum amigo vai me ensinar o que eu perdi. não existem amizade sem sangue.

volta aqui porque você é meu irmão, porque o seu amor é maior do que as nossas fraquezas. porque o meu amor são as palavras escritas de trás pra frente, quando como eu tinha três anos e dizia “eu te amo” misturando letras quaisquer. o sentido do gesto era maior do que sua semântica e mesmo desse desencontro de gerações podia, e nascia, alguma coisa muito maior. você sabe mais do que eu, é verdade. enquanto cresço assumo a dor de não ser tão boa quanto você é, porque chegou primeiro na vida e já imaginou muitas vezes o desespero de me perder só para reforçar e evitar a dor de uma perda real. não deixe que eu me afaste nessa multidão de luzes de natal porque as lojas sempre brilham mais do que a casa da gente.

volta aqui e acende de novo a vela do meu aniversário. não só pra que o brilho dessa luz caseira possa me hipnotizar, mas pra que o fogo em suas mãos me aqueça quando os convidados se forem. é mesmo só você e eu, ninguém se move no universo aqui na sala. abro os presentes em silêncio e choro, não de alegria, mas porque não sei o que fazer deles sem você pra dividir a brincadeira. não sei como ligar a máquina, não sei como evitar o corte. e se as fotos estiverem vazias no ano que vem é porque o seu pedaço de bolo foi o primeiro

e único.

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teoria das comportas

pode doer mas não pode ser o tempo todo. eu preciso beber água, preciso me alimentar pra sustentar o corpo que te alimenta. e para que você possa resistir e resguardar em mim o seu longo braço protetor, me deixa por instantes acreditar que respiro o ar. pode me usar mas não posso ser o tempo todo, a fantasia principal do seu espetáculo. precisa me deixar experimentar outras sensações, o mel feito por abelhas de outra cidade, quem sabe país. vou me entregar sem te causar preocupação: olhos vendados, braços abertos, despencando como fazem leves os corpos no cinema; sem queda e sem sangue.

já não é mais medo da sua inocente falta de aparência, do seu jeito de se misturar nos goles, nos beijos, nas roupas que visto. a descoberta da sua natural pureza me dá um conforto maior do que talvez dê aos outros o seu antônimo. não precisa mais bater à porta, não precisa mais de disfarce quando me abraçar. pode ter o seu cheiro mesmo, que é o cheiro de todos os outros; pode ter um detalhe secreto que é o seu espaço verdadeiro mesmo, o mistério de todos os outros. são as coisas que eu amo que te fazem assim e agradeço por todos os dias, me ensinar a entender um pouco mais sua beleza invisível.

eu tomo seu corpo e através dele existe uma linguagem. uma espécie de massa que modela os outros, que modela o meu eu nesses outros e me significa. não era nada, nunca seria nada – uma casa vazia, uma casca sem pão, final feliz –  se não houvesse o seu peso a me substanciar. tudo que sustento diz o seu nome e por isso tem sido tão difícil para um outro alguém me amar. o seu ciúme de mim me expõe ao ridículo, me traz desconforto. quando choro só por chorar, sem motivo maior ou justificativa, fico parecendo uma boba sem poder dizer o seu nome. ninguém quer saber o que eu sei de você.

me escuta: sem ninguém mais vier, se ninguém mais acreditar, vou precisar daquela sua promessa cumprida. realizando-se incansavelmente até o último dia meu, de você ser sempre você. exatamente assim, com o mesmo balanço, a mesma expressão que tinha nos enterros em que me acompanhou, e também a mesma postura nos bailes onde preferi não dançar e você achou bom, já que nunca dançou muito bem. porque se não tenho tempo para me servir sozinha, para deixar que os outros me sirvam, aí completado o destino de te mimetizar. no final dos livros, no reconhecimento dos meus próprios medos, no calor e na ausência de calor, terei então sentido. 

me aperta, bem apertada, pra perguntar se “dói?”, eu te dizer que “sim” e você poder ver em mim quem exatamente é

e também se doer.

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tudo azul

salvei band of horses. salvei uma música antiga do tears for fears, chamada i believe. salvei o desejo de comprar uma câmera fotográfica desde aquele dia em que a gente passeou por ipanema e eu acreditei que as fotos não nos roubavam a alma, mas nos asseguravam da sua presença. salvei o triângulo das águas, do caio fernando abreu (ele possivelmente ri de mim, porque salvar caio fernando é ter vergonha de dizer as coisas com as próprias palavras). salvei aqui mesmo muitos fragmentos de coisas que eu fiz mas que não são minhas. essa ideia de que o mundo é uma experiência de ciclos e que tendo fechado o nosso, vivo aguardando a nova onda me levar. ou me ressuscitar de estar boiando na superfície vazia de uma piscina sem água. salvei o sol de todas as manhãs que não acordei ao teu lado. eu salvei as horas, eu salvei os gastos. venho recolhendo, anotando e quantificando as coisas que eu sei que você não tem tempo de prestar atenção. 

eu salvei o silêncio do teu sexo.

por isso venho salvando a lembrança de um céu que eu achei bonito. salvei a lua cheia do recife antes do carnaval. salvei o sal que grudou nos meus lábios enquanto corria de carro perto do mar. salvei uma história engraçada e que ninguém riu, ainda bem, pra você poder rir bem à vontade num outro dia qualquer. salvei os meus fracassos todos, pra que você tenha onde se consolar quando olhar os próprios desastres e assim, encontrar em mim um caminho menos doloroso até o chão. salvei os restaurantes, as boates, os bares e paisagens, tudo pintado de azul do mar. salvei a certeza de que o mundo vai voltar a ter outro tom quando você voltar.

mas pode ser que você não volte, não é? venho trabalhando com essa possibilidade e salvar essa dor há de me permitir aceitar que possivelmente o mundo não se colorirá. as crianças brincam na água, os animais também. os homens de terno sorriem, discretamente, porque gostam da chuva a lhes quebrar o cinza. o mundo é azul. salvei a luz de uma tarde de maio a realçar essa beleza. salvei a capacidade de senti-la. salvei as comemorações: um novo emprego, um novo brinquedo, uma nova fé. salvei o ano novo, o natal, o seu aniversário. salvei são paulo e os instrumentos musicais. salvei o seu rosto no exato segundo em que pensou que me amava e me amou. salvei a resposta que eu tinha pra te dar. salvei o perdão que me acorda todos os dias, onde quer que eu esteja. ele é pra você, como tudo que eu salvei

e que não pode me salvar.

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I coríntios 13

não vos deixeis abater por um comportamento pouco combativo. para fazer da luta um instrumento de corte, capaz de dissecar o mato que cresceu ao nosso redor e assim novamente reinar, no árido planeta pós o teu amor. e para isso servem as mesmas mãos, a mesma boca, cansada de pedir desculpas pela grosseria de estar levando a vida da melhor maneira possível já que é preciso continuar. se é isso que incomoda as horas, deixando tudo travado no remanso inquieto entre um ponteiro e o outro, vou ser. não vos deixeis dominar pelo falso açúcar de um comportamento contemplativo. não somos plantas e não é a luz do céu a nos regar de energia até chegar o amanhã. há um mundo de cartas, poeira dos dias lá fora, coisas adiadas pra se resolver que não envolvem nosso sentimento, urgentes na porta de entrada das próximas vinte e quatro.

de vinte e quatro em vinte e quatro escrever um novo salmo e rezar para que essa oração seja atendida. mas alguém disse que é preciso fazer por onde para ser enfim ajudado e aqui no vale da sombra da minha própria morte, eu chamo o seu nome. cada vez que ele ribomba em uma das paredes do meu claustro, caem as pedras, se ampliam os túneis e a passagem de um ar sem vícios (uma luz que você nunca quis enxergar) me embota e seduz. eu grito o seu nome e pelo eco, como fazem os sons da festa do vizinho, no andar de cima, parecerem muito mais perto através da viagem pelos canos de esgoto do prédio, nos aproximamos na prece da separação. se me deixei cair em tentação, perdoa a força com que os meus pecados te redimem: somos todos iguais na arte de fazer-nos o mal.

cavalgo outros passos que não os de meu pai Ogum mas vejamos, a luta é a mesma. é o mesmo desentendimento. cada lado da peleja defende os seus próprios interesses e na cama a gente esquece quando goza antes de fazer o outro. cada um na sua obstinada ideia de chegar a tempo da festa, de não perder o culto aos vencedores: menos cortes mais habilidade, menos cortes mais pureza. quando eu chegar vestindo sangue da cabeça aos pés será questão de apenas lembrar destes versos: não vos deixeis viajar sem tocar profundamente o caminho. está tudo bem quando acaba bem e se terminou num lugar muito diferente do que aquele traçado no início do projeto, o compromisso com o plano não era o teu objetivo. era somente passar por ele e dele sim, lamber o caldo da fruta com ela no pé, sem o rastro higiênico da vida que acontece nos supermercados. a vida real.

vivemos os nossos sonhos e nunca vamos nos dar conta. eis o mais importante de todos os mistérios, ter a estrela nas mãos e não se queimar. ver o sol no teu peito e encharcar de chuva essa felicidade até nos afogarmos. nos afogamos. não vos deixeis ressuscitar. agora que estou sabendo dos mistérios da vida após a morte não quero perder a oportunidade de dar o teu adeus, merecido, de um lugar muito mais bonito. embora nunca completamente à salvo, porque já passou o tempo de não querermos ouvir os mortos. eles nos falam através dos corpos dos nossos vivos, fazem nossos dedos errarem o número digitado no telefone, derrubam copos de água e bebem o rio de luz que reflete no líquido espalhado pelo chão. e com cuidado acrescento aos meus pedidos a sabedoria de saber zelar por eles, pela manutenção de sua doce inquietude nos meus dias a fim de que eu possa estar sempre preparada para me despedir.

quem vai até o fim não tem mais que se preocupar se lembra ou não de como foi o começo. como faz a terra com o passar dos anos, depositando mais terra que é a mesma em cima das nossas verdades. no fim é tudo feito do mesmo barro, da mesma forma vai nascer o pasto e ninguém vai escavar em busca de justificativa. só quem se afunda encontra os seus mortos. sua areia branca de ossos, o cabelo crescendo no silêncio escuro, envergonhado por ainda amar um mundo que não mais lhe pertence. não vos deixeis ser a pá, rogai para ser a pedra. ou o vento ou a chuva que destroem a pedra e erguem, inexoravelmente, a altura do chão sob os nossos pés. para que, hosana, elevemo-nos até quem sabe conferir quais dos nossos chegaram ao céu antes de nós. debaixo da terra ou lá em cima, são todos os que não valem a pena enquanto estivermos aqui no meio.

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fica

uma vez alguém me disse que o câncer é uma espécie de suicídio não consensual. afinal, é o nosso próprio corpo decidindo transformar a luz no clarão do desencontro, se lavar na chuva do último verão de uma inocência que se perderá. o câncer é uma doença que pode te matar em seis anos ou em seis semanas, independe da sua tolerância à angustia e menos ainda do poder de resistência dos que navegam na órbita dessa dor. existem as flores de vaso e as coroas de flores mas todas elas acabam morrendo da mesma maneira assim como da mesma terra vieram e para a mesma retornarão, ainda que passem antes uma temporada em diferentes latas de lixo. todo câncer é uma espécie de estrela brilhando num céu distante, possui uma beleza trêmula que não se pode conviver e muito menos tocar. alguns são do tamanho de laranjas maduras, se instalam no peito da gente e dão a nascer uma árvore de outros cânceres menores, de laranjinhas envenenadas de silêncio. a piedade se encarrega de fazê-la alimento dos que beijam a face do doente e foi assim que o câncer, uma doença inteligente, transformou-se numa moléstia transmissível pelo contato com o infectado.

células comem outras células num gesto de delicada beleza natural. se unem e depois vão se repartir, numa mecânica em moto contínuo que talvez nos garanta respirar, caminhar, sentir sede e depois dormir, como dorme em silêncio tudo que em nós ainda não adoeceu. mas adoecerá. somos estrelas também. quando morremos na verdade já estamos mortos há muito, muitíssimo tempo. todos os dias, milhares de neurônios descansam no buraco negro do que eu não quero lembrar. não vale a pena lembrar que eu não sei, eu duvido, eu não tenho certeza, se o seu sangue continua correndo dentro do meu mesmo depois da estrela despencar. o câncer, mesmo quando não generalizado, afeta os pontos estratégicos que garantem a sustentação do corpo antes do céu. dentro da boca, ele come a língua que um dia comeu o seu corpo sem te transmitir o mal. o amor é uma doença autoimune. nos pulmões, arrasta nas paredes o cheiro repetitivamente doce do seu perfume na brasa de qualquer cigarro. e mesmo sabendo que fumar causa enfisema pulmonar, fumamos.

nas veias, o câncer é o conciliador num sequestro: é melhor se entregar. dá o que é preciso que se dê, se entrega de uma vez e abandona todo o sofrimento que o cativeiro te causa. o amor é uma doença a qual ninguém está imune e, por ano, a leucemia mata cerca de 200mil pessoas ao redor do planeta. estamos sobrevivendo enquanto tudo morre ao nosso redor e isso é o de menos. quando forem nos enterrar já não estaremos mais aqui! eu e você já teremos chorado de alívio ao final de cada certa despedida: dessa vez acabou pra sempre. a pureza da manhã caindo como um manto branco, o teu corpo é um corpo sagrado nestes lençóis igualmente brancos, depois de fazer amor com outra pessoa que não sou mais eu. eu e você já teremos chorado no silêncio histérico do banheiro de luz fria, espelho porta escova de dentes: está voltando outra vez.

uma grande onda do mar se lança sobre a janela. em algum lugar de outra cidade, chove um temporal daqueles de gota bem gorda, que molha toda uma roupa bem quando a gente não quer molhar. nem perto da praia você mora, nem sequer com gripe está. existe um tipo de câncer que dá nos ossos e insistimos em achar que é só o frio doendo bem lá dentro. estamos morrendo outra vez mas é ainda a mesma morte desde a primeira vez. nunca fui tão sincera. tenho medo da palavra “câncer”. as pessoas costumam dizer que repeti-la é somatizá-la. que nossos menores males, manias mesquinhas de odiar a vida, de ter pressa de chegar de viver pra comer e ser feliz, que todas essas coisas nos adoecem a olho nu. meus olhos nus veem as estrelas sem se preocupar nunca se elas estão mesmo ali, mortas ou vivas, contanto que estejam fazendo a graça de iluminar.

bela analogia. eu vejo minha vida com muito mais clareza quanto maior a sua destreza em me contaminar.

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virgem

não existe trilha sonora pra um amor. só quando ele passa, arrastando e lavando as escadarias da cidade em escombros, os túneis eternamente sujos de poluição, é que todas as buzinas se atrevem a cantar. dessa forma, o passado vai se apresentando ao futuro ‘oi como vai tudo bem quanto tempo’ e nada, de novidade nenhuma, terá mais gosto do que o plágio daquela canção preferida. já não faz a menor diferença lembrar qual ela era, como e quando e porque cantava ou deixava de cantar. na noite mais bonita de um ano passado, uma noite brilhante de tão escura, não havia nenhum aparelho ligado no universo. quem quer que tenha gravado a voz do teu suspiro gemendo em meu ouvido, apagou-se na cadência das vassouras dos garis, no bairro da gamboa, às sete horas da manhã de um domingo frio. 

usa algodão nos ouvidos pra dormir: a cidade lá embaixo fala a língua dos seus sinais. está em toda parte e em lugar nenhum, o eco rançoso das tuas palavras dizendo que não vamos parar de dançar. ainda festas, ainda casas noturnas, tudo que se move e faz rodar o mundo pra esquecer alguém como nós, não mais que o plágio de outra história de amor. de amor se faz um violão, uma gaita, uma fogueira para os teus amigos cantarem  essa felicidade ausente de mim. ‘vamos nos casar em setembro’, diz uma voz entornada de mel pelas ondas do rádio enquanto passa um trabalhador no fim do dia, seu radinho de pilha. estamos em junho, moço, e nada do que lhe disseram cabe no filme que a gente imagina ser a felicidade.

respirando música, digitam-se pelo meu corpo as impressões de tudo que não te contei. projetando-se para o dia depois de amanhã, um hoje eternamente repetindo datas onde você não está mais. mas esteve. e em seis meses (quem poderia dizer que eu deveria apostar?) continuarei gostando das mesmas canções do mesmo modo como gosto ainda de tudo que as tuas notas reproduzem, mesmo se ecos falsos pelos metais da minha casa. lá fora o amor reinou absoluto, nos corpos de baile, nas praças em festa, na casa dos outros. os outros também sou eu quando não digo nada pra provar que você existiu; quando me deixo levar, corpo num baile, pro campo aberto, mar sem estrelas, do prazer sem os teus instrumentos.

foi. já se foi. eu fico horas pensando que chorando de saudades quando tocam nossas músicas

[que em algum lugar do mundo alguma caixa de som explode de felicidade. há gente trepando, bebendo, morrendo de rir e vivendo pra sempre ao som do que julgamos de nossa exclusividade. há mais de nós esperando a temporada das flores, gente que acredita no alívio de outras condições, pedindo um pouco mais de paciência ainda que a vida não pare.]

estou resgatando só promessas incompletas. mas se toda promessa é também um eco falso – a felicidade do radinho de pilha – então estou em vão esperando nada, nada acontecer além das trilhas do vento no ar. você soprando na noite o meu nome no pretérito perfeito do nome de outra.  ninguém sabe porque isso é assim, funciona assim, e eis aí a graça de todo um mistério. quem vai nos dizer que não se pode enfiar ainda uma outra nota no meio de duas outras? que de tão juntas elas pareçam uníssonas mas se perfurem de dentro pra fora por microscópicos buraquinhos e fundos falsos entre eu e te amo. 

eu amei mesmo. a trilha sonora é a última parte do filme e por não ser autora (mas atriz), portanto não eu a dizer que fiquei incompleta.

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